
O caso Master vai ficando mais caro, mais feio e mais revelador a cada novo capítulo. Já não se trata apenas de um escândalo bancário, desses que o Brasil aprendeu a produzir em série com planilha, gravata italiana e linguagem técnica para esconder o esgoto. O que se vê agora é algo mais amplo e mais incômodo: um enredo que vai puxando fios, exibindo conexões, arranhando a imagem do Supremo e iluminando esse ambiente brasiliense em que tudo parece misturado numa lama só, negócio, toga, vaidade, medo e autoproteção.
Nesta quarta-feira (22), Dias Toffoli se declarou suspeito e ficou fora do julgamento na Segunda Turma do STF que analisa a manutenção da prisão preventiva do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do advogado Daniel Monteiro, presos desde 16 de abril na Operação Compliance Zero. O relator, André Mendonça, não economizou palavras. Disse que as apurações apontam, em tese, para uma engrenagem ilícita montada para fabricar, vender e ceder carteiras de crédito fictícias do Banco Master ao BRB, com impacto patrimonial e institucional expressivo. Citou o parecer da PGR segundo o qual Paulo Henrique Costa teria recebido vantagem indevida em seis imóveis de alto padrão em São Paulo e Brasília, avaliados em R$ 146,5 milhões, dos quais R$ 74,6 milhões já teriam sido pagos. E apontou Daniel Monteiro como peça-chave da vertente jurídica da estrutura, com indicação de proveito próprio de pelo menos R$ 86,1 milhões.
Já seria escabroso o suficiente. Mas o Brasil, como sempre, trabalha por camadas. No mesmo dia, o BRB aprovou um aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões para tentar cobrir o rombo deixado pelas operações com o Master. Convém repetir devagar, porque no Brasil o absurdo entra por um ouvido e sai pelo outro com a naturalidade de um boletim de trânsito: um banco controlado pelo governo do Distrito Federal, dono de 53,71% das ações, precisa ser socorrido depois de ter se enfiado até o pescoço nessa história.
E não, o governo do Distrito Federal não tem esse dinheiro sobrando em alguma gaveta patriótica. Já foi autorizado a buscar captação, inclusive por meio de operações de crédito com o FGC ou instituições financeiras. Em português claro, o desastre privado vai adquirindo aquele perfume nacional de conta pública. Primeiro aparece a estrutura criminosa. Depois, o buraco. Por fim, entra em cena o contribuinte, esse figurante fixo da tragédia brasileira, chamado mais uma vez para assistir ao resgate com o bolso aberto.
Mas nem isso parece ter sido suficiente para recolocar as prioridades no lugar. Enquanto o chão afunda, o Supremo resolveu olhar com especial atenção para a sátira. Gilmar Mendes pediu a Alexandre de Moraes que Romeu Zema seja investigado no inquérito das fake news por causa de um vídeo com fantoches no qual um boneco de Toffoli pede a um de Gilmar que suspenda a quebra de sigilo em troca de uma cortesia no resort Tayayá, antiga propriedade de Toffoli que foi comprada por um fundo ligado a Daniel Vorcaro. Gilmar afirmou que o material usaria edição profissional e mecanismos de deep fake para vulnerar a higidez da instituição.
É o tipo de reação que já nem provoca espanto. Provoca um cansaço específico, aquele cansaço de viver num país onde parte da elite institucional parece incapaz de perceber a ordem moral das coisas. Há um escândalo concreto, robusto, fedorento, com prisões, cifras obscenas, conexões constrangedoras e erosão acelerada da confiança pública. E a Corte parece mais sensibilizada pela paródia do que pela decomposição da própria credibilidade. O problema, ao que tudo indica, não é a fumaça do incêndio, é o meme.
Segundo relatos de bastidor publicados na imprensa, há aliados dos próprios ministros alertando para o risco de tiro no pé. Mas a ala mais atingida pelo caso Master estaria dobrando a aposta, confiante de que domina o jogo em Brasília e de que não existe ambiente político para impeachment, mesmo com dezenas de pedidos empilhados no Senado. Tudo isso num momento em que a desconfiança em relação ao STF bate recorde. A fotografia é péssima, e talvez por isso mesmo tão reveladora.
Porque o ponto central já não está apenas na suspeita de promiscuidade entre poder e interesse. O centro do problema é essa sensação cada vez mais consolidada de que, no topo da República, há gente demais se comportando não como servidora das instituições, mas como proprietária delas. E quando autoridades começam a agir como donas do regime, qualquer crítica vira ofensa, qualquer sátira vira ameaça e qualquer apuração vira insolência.
O caso Master expõe uma podridão financeira. A reação em torno dele expõe algo talvez a podridão moral de uma cúpula que, diante da febre, prefere processar o termômetro.




