
A nossa República sempre encontra um carimbo, uma gaveta, uma nota oficial ou uma decisão monocrática para fingir que continua de pé com a mesma elegância de antes. Mas o relatório final da CPI do Crime Organizado fez mais do que pedir o impeachment de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Paulo Gonet. Ele colocou no papel uma suspeita que já circula no ar como mofo em sala fechada: o escândalo do Banco Master virou um raio-x indecente do poder brasileiro.
É a primeira vez que uma CPI pede o indiciamento de ministros do STF. Mesmo num país treinado no absurdo, ainda há absurdos capazes de subir o sarrafo. O relatório de Alessandro Vieira acusa Toffoli de atuar sob conflito de interesses, Moraes de se envolver em zona pantanosa entre advocacia familiar, Banco Central e Banco Master, Gilmar de blindar quebras de sigilo e Gonet de omissão diante de indícios graves.
É duro, é gravíssimo e, ao mesmo tempo, tem grandes chances de ser politicamente decorativo. Porque, no fim, tudo cai no colo de Davi Alcolumbre, que já negou a prorrogação da CPI sob o argumento maravilhoso de que ano eleitoral não combina com investigação. Traduzindo para o português sem perfume: investigar poderoso em ano de eleição pode atrapalhar poderoso em ano de eleição. Que descoberta magnífica.
A CPI nasceu depois da megaoperação policial que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro. Entrou no caso Master sob o pretexto de apurar a infiltração do crime no sistema financeiro. Acabou encostando no Supremo, na PGR, no Senado, no Banco Central, nos escritórios de Brasília, nos fundos, nos consultores e nessa fauna inteira que vive entre o parecer jurídico, o jatinho emprestado e o PIX de muitos zeros.
Não se trata de defender linchamento político de ministro, ninguém deve ser linchado. Mas também não dá para tratar ministro do Supremo como aiatolá de toga, autoridade religiosa acima da suspeita, da explicação e do próprio decoro.
Quando o dinheiro entra por um lado, a decisão judicial sai pelo outro e ninguém explica nada com clareza, a democracia não está sendo protegida. Está sendo humilhada.
O relatório talvez não dê em nada. No Brasil, aliás, o mais provável é que não dê em nada mesmo. Mas o estrago já foi feito. Segundo Datafolha, 55% dos brasileiros dizem acreditar que ministros do STF estão envolvidos no Caso Master. A partir daí, o problema deixa de ser apenas jurídico e vira crise de legitimidade.
E legitimidade não se recupera com nota oficial, pose republicana ou sermão sobre defesa da democracia. Recupera-se com investigação, explicação, renúncia quando necessária e vergonha na cara quando ainda restar alguma.
O Supremo pode até sobreviver ao Caso Master. Mas, se fingir que nada aconteceu, vai sobreviver menor, mais suspeito e perigosamente parecido com aquilo que sempre disse combater.





