
Num elevador em Copacabana, cinco homens aparecem sorrindo após cometerem um estupro. Um deles olha para a câmera e diz uma das frases mais desoladoras que eu já escutei: “a mãe de alguém teve que chorar hoje, porque as nossas mães…”.
A cena, exibida pelo Fantástico no último domingo, tem algo de muito obsceno que vai além do próprio crime. Não é apenas a brutalidade, pelo contrário: é a leveza. A naturalidade. Aquela gargalhada de quem tem certeza de que nada realmente grave vai acontecer depois.
Em outro ponto do país, num universo aparentemente distante daquele elevador carioca, Daniel Vorcaro começava a pensar em delação premiada. Até outro dia, justiça, para ele, parecia ser apenas um detalhe operacional. Um telefonema aqui, um contato ali, algum favorzinho em Brasília, e o problema administrativo chamado “processo judicial” se dissolveria no ar.
Os personagens não poderiam ser mais diferentes. De um lado, um grupo de homens covardes e embrutecidos celebrando um estupro coletivo como se fosse troféu de campeonato amador. De outro, um financista acostumado a circular entre autoridades e a tratar a lei como variável negociável.
Mas há um ponto de encontro invisível entre eles: a convicção de que as regras não valiam.
Os homens do elevador falavam como quem acredita que o crime é apenas uma aventura juvenil. Vorcaro agia como quem vê o sistema de Justiça como um serviço de concierge. Dois estilos diferentes de arrogância, alimentados pela mesma suspeita nacional: a de que, no Brasil, sempre existe uma saída.
Agora, pelo menos por enquanto, todos estão presos. Os estupradores foram identificados e detidos e o banqueiro que parecia intocável foi parar numa penitenciária do interior.
Isso, por si só, já surpreende boa parte do país. Porque no Brasil a prisão ainda é tratada como evento extraordinário, não como consequência natural de um crime.
Só que ninguém aqui se iluda muito, porque a prisão, entre nós, raramente é o final da história. Ela costuma estar mais para o prólogo.
Porque depois dela vêm os advogados, os recursos, as nulidades, os habeas corpus, os incidentes processuais que se acumulam em cima da ideia de justiça. E, pouco a pouco, o tempo faz o que muitas vezes o direito não consegue fazer sozinho: dissolve o escândalo.
É por isso que aquela pergunta começa a surgir quase automaticamente quando a gente vê esses casos explodindo no noticiário: até quando?
Porque o Brasil até prende. Às vezes prende até rápido. O problema nunca foi exatamente esse. O problema é que ninguém aqui aposta muito dinheiro no prazo de validade dessas prisões e talvez essa seja a nossa maior tragédia institucional.
Não é a ausência de lei, é a permanente suspeita de que, no fim das contas, ela sempre pode ser negociada.





