
Desde 1979, a comunidade internacional decidiu acreditar na mentira confortável de que é possível conviver com uma teocracia armada até os dentes, financiando milícias terroristas mundo afora, enforcando homossexuais em praça pública e ameaçando varrer países do mapa, e ainda assim chamar isso de “diplomacia”.
Essa mentira, aparentemente, acabou neste fim de semana.
O ataque americano e israelense que eliminou Ali Khamenei não foi apenas uma operação militar. Foi a implosão de uma fantasia diplomática que vinha sendo alimentada há décadas. A fantasia de que o regime dos aiatolás podia ser contido com notas de repúdio, sanções internacionais, rodadas de negociação e discursos solenes sobre estabilidade regional.
Não podia, nunca pôde.
Quando mísseis iranianos começaram a cruzar o céu e atingir países como Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Catar e Jordânia, caiu junto a ficção de que o fanatismo podia ser contido dentro de fronteiras. O que desabou em Dubai não foi só concreto, mas a ideia infantil de que dava para normalizar o anormal.
E então surgem, pontuais como sempre, os fiscais de sofá do direito internacional. Digitam indignação com os dedos sujos de salgadinho enquanto falam como se estivéssemos discutindo uma democracia escandinava imperfeita. Não estamos.
Estamos falando de um regime que enforca homossexuais em guindastes em praça pública, que espanca mulheres até a morte por mostrarem o cabelo. Que financiou Bashar al-Assad enquanto ele despejava gás sarin sobre crianças sírias. Que abastece a Rússia com drones para bombardear a Ucrânia. Que arma os Houthis no Iêmen, o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza. Que desde 1979 chama os Estados Unidos de “Grande Satã” e Israel de “Pequeno Satã” e promete o fim do Estado judeu.
Isso não é um desvio pontual, é um projeto ideológico.
E é importante separar as coisas, porque a confusão interessa aos cínicos. O povo iraniano não é o seu regime. O Irã não se resume à Guarda Revolucionária. Existe ali uma sociedade civil vibrante, jovens conectados ao mundo, mulheres que desafiam a polícia da moralidade, manifestantes que foram presos, torturados e assassinados nas ruas.
Ataque ao Irã
Só nas recentes ondas de protesto, milhares morreram sob a repressão de um Estado que age como organização paramilitar contra a própria população.
Quando alguém aqui trata isso como se fosse uma disputa geopolítica abstrata entre potências, está apagando essa realidade concreta de que o inimigo do regime sempre foi, antes de tudo, o próprio povo iraniano.
E há outro ponto incômodo aí. O Irã não atacou apenas Israel, atacou vizinhos árabes. Isso revela algo que muitos preferem ignorar: a chamada “causa palestina”, para Teerã, nunca foi prioridade humanitária e sim um instrumento estratégico, um pretexto para incendiar a região e ampliar influência. Gaza e o Líbano viraram tabuleiros sacrificáveis numa guerra permanente que alimenta o próprio regime.
Não se trata de amar Trump, odiar Trump, gostar de Netanyahu, odiar Netanyahu, ou detestar os Estados Unidos. Trata-se de reconhecer um fato objetivo: regimes teocráticos que sobrevivem do conflito não negociam paz duradoura. Eles precisam do inimigo para continuar existindo. Fanatismo de Estado não é política externa, é, sim, vocação para o confronto.
O mundo passou décadas fingindo que estava diante de um governo normal. Nós mesmos recebemos o – agora morto – ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad no Brasil com muita pompa e circunstância em 2009, quando o governo Lula dizia ser favorável ao direito iraniano de enriquecer urânio. Nós estávamos era diante de um projeto ideológico que combina religião, militarização e ambição territorial num pacote que só prospera na instabilidade.
Agora, com Teerã em convulsão, a pergunta não é apenas o que fará Washington ou Jerusalém. A pergunta é o que fará o próprio Golfo. Vai continuar tentando agradar quem o ameaça? Ou vai admitir, finalmente, que não se normaliza o que é estruturalmente anormal?













