São incontáveis as vezes em que, nos últimos 10 anos, eu abri o jornal pela manhã e pensei: “ok, agora acabou a República”. Mas talvez todas as vezes anteriores em que esse pensamento me ocorreu logo cedo tenham se tornado ingenuidade na manhã de hoje.
Porque o que está aparecendo nas investigações sobre o Banco Master não é apenas um escândalo financeiro. É um retrato obsceno de como dinheiro, poder e violência podem se misturar quando ninguém segura o volante.
O que a Polícia Federal descreve nos autos não parece o funcionamento de um banco. Parece o organograma de uma organização criminosa, de milícia de cartel latino, da máfia russa. Daniel Vorcaro mantinha uma estrutura paralela conhecida como “A Turma”. Não era um grupo de executivos, nem um grupo de amigos de faculdade. Era uma espécie de aparato privado de vigilância, intimidação e pressão. Pessoas pagas a peso de ouro – em alguns casos, cerca de um milhão de reais por mês – para monitorar alvos, acessar dados sigilosos, seguir desafetos e pressionar quem atravessasse o caminho do banqueiro.
Já seria grave o suficiente. Mas o que realmente causa repulsa são os detalhes.
Nas mensagens interceptadas pela Polícia Federal, Vorcaro manda “moer” uma empregada doméstica que teria feito ameaças contra ele. Em outra conversa, manda dar “um sacode” em um chef de cozinha para intimidar terceiros. E há um momento particularmente repugnante em que surge a ideia de forjar um assalto para quebrar todos os dentes do jornalista Lauro Jardim. Jornalistas e essa mania insuportável de jogarem luz onde os canalhas querem manter as trevas.
Isso não é banco. Não é empresa. Não é empreendedorismo agressivo. Isso é linguagem de facção.
Ainda segundo a investigação, havia também um braço dentro do próprio Estado, é claro. Ex-diretores do Banco Central que, de acordo com os autos, teriam antecipado fiscalizações, revisado documentos e aconselhado o banco sobre como escapar do órgão que deveria regulá-lo. Dinheiro do mercado financeiro, informação privilegiada dentro do Estado e um esquadrão privado para intimidar quem atrapalhasse o negócio.
Uma máquina completa.
Diante disso, a pergunta inevitável é como uma estrutura desse tamanho conseguiu operar durante tanto tempo dentro do sistema financeiro brasileiro sem que ninguém puxasse o freio de mão?
Parte da resposta apareceu de forma quase cômica no último domingo, numa entrevista do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, ao Canal Livre, da Band. No meio de um daqueles sincericídios pelos quais Valdemar é conhecido, ele contou que senadores – incluindo opresidente da Casa, Davi Alcolumbre – teriam proposto um acordo: votar a dosimetria das penas do 8 de janeiro desde que a CPI do Banco Master fosse enterrada no Senado.
Se isso for verdade, não estamos apenas diante de um escândalo financeiro. Estamos diante de uma tentativa explícita de blindagem política.
A outra parte da resposta talvez esteja no momento em que essas revelações começaram a aparecer com mais intensidade. Coincidentemente ou não, essa selvageria toda só apareceu depois da mudança do relator do caso no Supremo Tribunal Federal. Coincidência é uma palavra muito usada na política brasileira, mas raramente é uma explicação.
O que está vindo à tona no caso do Banco Master não é apenas a história de um banqueiro poderoso que passou do ponto. É um retrato perturbador de como certas engrenagens de poder funcionam quando o dinheiro começa a comprar silêncio, influência e medo.
Resta agora saber o quanto ainda está por vir, pra eu decidir se já posso cravar que a República respira por aparelhos ou espero o próximo escândalo.





