
Dois dias atrás, o TSE tornou Cláudio Castro inelegível por oito anos, por 5 votos a 2, após reconhecer abuso de poder político e econômico na eleição de 2022. Hoje, dois dias depois, numa eleição extraordinária boicotada e contestada judicialmente pela oposição, Douglas Ruas foi eleito presidente da Alerj com 45 votos e entrou na linha sucessória para assumir o governo em exercício. No meio do caminho, Rodrigo Bacellar já havia sido cassado, com determinação de retotalização dos votos para deputado estadual, o que pode mexer na composição da própria Assembleia.
É difícil até organizar mentalmente a sequência porque o Rio transformou a exceção em método. Renuncia o governador, cai o presidente da Assembleia – o vice já tinha saído antes –, assume o presidente do Tribunal. Aí a Assembleia corre para fazer uma eleição relâmpago, antes mesmo de a poeira institucional baixar, e o sujeito eleito já não é apenas presidente do Legislativo, mas também a solução provisória para o Executivo. Solução provisória, aliás, é o grande apelido da tragédia fluminense. Nada ali é legítimo por inteiro, sólido por inteiro, respeitável por inteiro. Tudo parece interino, improvisado ou contaminado.
O Rio de Janeiro chegou a um estágio de decomposição política tão avançado que já não se discute sequer quem seria o melhor nome para governar o Estado. Discute-se se existe um nome que não chegue ao cargo com cara de remendo, favor, arranjo ou gambiarra institucional.
Esse é o ponto mais humilhante de todos.
Cláudio Castro virou o sétimo ex-governador do Rio a enfrentar prisão, cassação, impeachment ou inelegibilidade desde a redemocratização, ampliando uma linhagem de governadores marcados por escândalo, destituição ou ruína judicial.
Sete. Sete governadores encalacrados na Justiça em 40 anos.
Não é azar, coincidência ou crise. Crise é um tropeço. O que o Rio tem é um modelo de poder apodrecido, uma cultura política em que o escândalo não interrompe carreira, apenas reorganiza a fila. Uma engrenagem em que a máquina pública, em vez de servir ao Estado, serve à facção do momento. E facção aqui não é força de expressão moral, é método de ocupação.
O caso que derrubou Castro e atingiu Bacellar é revelador justamente por isso. Segundo o TSE, houve abuso de poder, uso indevido da máquina e um esquema de contratações irregulares na Ceperj e na Uerj, com milhares de cargos temporários e recursos públicos mobilizados em favor do projeto eleitoral do grupo.
Num Estado minimamente decente, uma pancada dessas produziria ao menos um efeito colateral saudável: abrir espaço para algum nome institucionalmente apresentável, alguém capaz de assumir com sobriedade, respeitabilidade e um mínimo de constrangimento diante do desastre.
No Rio, não. No Rio, a implosão de uma cúpula só revela que por baixo dela não havia reserva moral, apenas outra cúpula esperando a sua vez.
Porque não se trata apenas de um governador inelegível. Trata-se de um Estado cuja estrutura de poder já não consegue produzir uma sucessão normal. Cai um, some outro, entra um terceiro, corre-se para eleger um quarto, e ninguém no caminho inspira a sensação elementar de que a coisa voltou aos trilhos.
A eleição de Douglas Ruas foi defendida por governistas com argumento de precedente regimental, enquanto a oposição tentava barrá-la na Justiça dizendo que a votação foi atropelada antes da retotalização determinada pela cassação de Bacellar. É a cara do Rio atual: até a escolha do sujeito que deve garantir estabilidade nasce sob suspeita de casuísmo.
E isso acontece no segundo maior colégio eleitoral do país, num dos Estados mais importantes da federação, uma vitrine histórica do Brasil, uma máquina pública bilionária, uma unidade da federação que deveria irradiar liderança e hoje mal consegue oferecer decência administrativa em regime de plantão.
O Rio de Janeiro, que já foi símbolo de poder, hoje virou símbolo de decomposição.
Não é mais um estado governado por homens públicos. É um Estado sequestrado por sobreviventes de escândalo. Uns caem, outros renunciam, outros são cassados, outros surgem correndo para ocupar a cadeira ainda quente.
O mais inacreditável é justamente isso: não é que o Rio tenha chegado ao ponto de eleger alguém contestado para tapar um buraco institucional. É que, depois de tanto desastre, não exista sequer uma figura capaz de assumir o governo sem que o país inteiro pense a mesma coisa no mesmo instante.
Apodreceu tudo.





