
Tem extrato que fala mais alto do que nota oficial.
O escândalo do Banco Master há muito já não é só aquele rombo de R$ 50 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, aquela fila de gente ressarcida até o teto e abandonada acima dele, aquele banqueiro preso no mesmo dia em que o Banco Central do Brasil liquidou a instituição. Agora tem planilha. Tem data. Tem coincidência.
Segundo o Estadão, um fundo ligado ao grupo de Daniel Vorcaro fez aportes de R$ 35 milhões no resort Tayayá, no Paraná, empreendimento do qual a Dias Toffoli e sua família eram sócios. Os depósitos teriam sido feitos pelo cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel. As datas coincidem com a negociação da sociedade. “Coincidência” é uma palavra simpática, né. O problema é que extrato não é simpático, extrato é frio.
Toffoli diz que não recebeu dinheiro de Vorcaro. Afirma que vendeu regularmente uma participação familiar. Nega amizade. Tudo dentro do script. Mas quando a perícia no celular apreendido pela Polícia Federal indica cobrança por “agilizar aportes” porque o banqueiro estaria numa “situação ruim”, o debate deixa de ser sobre retórica e vira sobre lastro.
O Supremo resolveu a crise com criatividade: tirou Toffoli da relatoria, mas não o declarou suspeito. Continua no processo. Continua podendo votar. Só não relata mais. Uma espécie de meio-afastamento, um afastamento diet. O professor de Direito Constitucional Conrado Hübner Mendes chamou de solução “extravagante” e ela é, mesmo. No processo penal, ou há suspeição, ou não há. Criar uma terceira via soa menos como técnica e mais como contenção de danos.
E o caso já não se limita ao mercado financeiro. A Prefeitura de São Paulo investiga possíveis tentáculos do Master em concessionárias de cemitérios. Sim, ao que tudo indica, a fome de Vorcaro por poder era tanta que até nos terrenos do além ele quis se envolver. De acordo com o que se sabe até agora, foram empréstimos de R$ 77,9 milhões, questionamentos sobre estrutura societária, o cunhado Fabiano Zettel como conselheiro de uma das concessionárias e mais de cem autuações acumuladas em 2025. Não é teoria conspiratória, é ofício.
O Master não quebrou isolado. Ele se espalhou. Fundo de investimento aqui, concessão pública ali, relação com ministro acolá. O dinheiro circula com uma desenvoltura que a institucionalidade brasileira raramente acompanha. Se tudo é regular, que abra-se a caixa preta com luz total. Se não é, não há nota coletiva que resolva nem arranjo regimental que apague.
Porque quando o dinheiro de um escândalo bilionário encosta no entorno de um ministro da Suprema Corte, o problema deixa de ser apenas processual e vira, também, uma questão de confiança. E confiança, diferente de extrato bancário, não aceita parcelamento.





