A sessão era para investigar fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas do INSS. Terminou com socos, empurrões, gritos e a transmissão da TV Senado interrompida. Não se tratava de um boteco de esquina num fim de noite, mas sim de uma Comissão Parlamentar de Inquérito da República.
A CPI do INSS tinha acabado de aprovar a quebra de sigilo fiscal e bancário de Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula, além de requerimentos que atingem empresários, ex-assessores e personagens ligados ao escândalo dos descontos indevidos. O governo tentou votar tudo em bloco para derrubar a pauta enquanto a oposição exigiu votação individual. Em votação simbólica, o presidente declarou os itens aprovados. E o que deveria ser debate virou selvageria.

Não importa a bandeira partidária, não importa o cálculo eleitoral, não importa o nervosismo do momento, o Parlamento é o lugar da palavra. É ali que o conflito precisa ser absorvido pela linguagem, pelo argumento, pela articulação política. Quando a discussão ultrapassa esse limite e vira agressão física, quem perde não é um lado ou outro, mas a própria instituição.
Há um detalhe que não pode ser ignorado. Quando um deputado de 68 anos vai às vias de fato, o gesto não revela vigor, revela descontrole. E descontrole, em política, quase sempre é filho do desespero. Até hoje não vi alguém se desesperar a troco de nada. O desespero nasce do medo – medo do desgaste, medo da exposição, medo do que pode aparecer quando as luzes se acendem sobre dados e transações.
Quebra de sigilo não é condenação. É instrumento de investigação. Se não houver irregularidade, os documentos demonstrarão isso. Se houver, a sociedade tem o direito de saber. Reagir à investigação com fúria física produz um efeito perverso: desloca o debate do mérito para o espetáculo e passa a impressão de que o problema não é a acusação, mas a apuração.
É evidente que uma CPI é também palco político. Governo e oposição usam cada requerimento como peça de estratégia. Isso faz parte do jogo democrático. O que não faz parte é a substituição do embate verbal pela agressão corporal. Quando a TV Senado sai do ar porque parlamentares se empurram diante das câmeras, a cena não comunica força. Comunica fragilidade institucional.
A CPI seguirá. Os sigilos, se confirmados, serão analisados. O processo continuará dentro dos ritos previstos. Mas a imagem que ficou é a de um Parlamento que parece não suportar a própria função de fiscalizar. Investigar não é agredir. Fiscalizar não é golpe. Se a política reage com violência a uma quebra de sigilo, talvez o que esteja em jogo não seja apenas narrativa – e sim o temor de que a investigação encontre algo que alguns prefeririam manter invisível.





