
Enquanto o Fundo Garantidor de Crédito faz planilha para entender o tamanho do rombo do caso Master, o noticiário abre alas para outro capítulo da novela: as festas de Daniel Vorcaro.
O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União apresentou representação recomendando a abertura de processo para identificar quais autoridades públicas federais teriam participado dos eventos promovidos na casa de veraneio do então banqueiro em Trancoso, no sul da Bahia. Segundo o documento, datado de 29 de janeiro, os encontros, batizados de “Cine Trancoso”, teriam reunido altas autoridades dos Três Poderes, integrantes do Executivo do governo anterior, membros do mercado financeiro, da política e do meio jurídico.
“Cine Trancoso”. O nome é quase uma ironia pronta para quem tem mais de 30 anos, claro. Não era Netflix, mas aparentemente tinha roteiro, elenco e, ao que tudo indica, câmera.
Reportagens da revista Liberta e da Folha revelaram que, entre 2021 e 2022, Vorcaro alugou a casa de Trancoso que pertencia à empresária Sandra Habib, mulher de Sérgio Habib, presidente da JAC Motors Brasil. Depois, o imóvel foi comprado por empresas ligadas ao banqueiro e acabou envolvido em disputa judicial.
No processo, vieram à tona mensagens de WhatsApp da antiga dona, furiosa. Ela relatava que o locatário teria “enchido a casa com 20 prostitutas”, contratado banda de pagode, ultrapassado o limite de convidados previsto em contrato e provocado reclamações de vizinhos, polícia e até órgãos ambientais.
Mais de 35 pessoas numa casa alugada para 20. Pagode alto. Véspera de aniversário. Funcionários chocados. É o tipo de relato que parece roteiro rejeitado da Globo, mas está em autos judiciais.
Segundo a Folha, as festas não se restringiam à Bahia. Houve eventos em São Paulo, em Nova York. Houve comemoração paralela ao tradicional Fórum Jurídico de Lisboa, apelidado de “Gilmarpalooza”, idealizado por Gilmar Mendes. No dia seguinte, na Avenida da Liberdade, segundo relatos, só se falava da festinha do Master.
O cardápio não era de botequim, claro. Caviar como petisco, vinhos como Petrus, La Tâche e Armand Rousseau – garrafas que podem variar de R$ 5 mil a R$ 50 mil. Macallan sobre a mesa, o uísque mais caro do mundo, que virou símbolo de ostentação líquida. Modelos estrangeiras chegando de jatinho e a narrativa curiosa de que a escolha por russas e ucranianas tinha uma vantagem estratégica: não falavam português, portanto não entenderiam as conversas que aconteciam entre um carinho e outro.
Relatos apontam que não era permitido entrar com celular. O detalhe pitoresco é que o nome “Cine Trancoso” reforçou a percepção de que imagens teriam sido gravadas e guardadas pelo anfitrião. Há rumores de que a Polícia Federal teria acessado conteúdos no telefone de Vorcaro e avalia como tratá-los, uma vez que festa entre adultos consentidos não é crime, mas a intimidade do poder, quando registrada, costuma ser mais explosiva que qualquer planilha do Banco Central.
É importante dizer. Até aqui, o que há são investigações e relatos, não há sentença. Mas há um fato político inescapável: quando autoridades de todos os Poderes frequentam festas suntuosas de um banqueiro cujo banco acabou liquidado, a fronteira entre amizade, lobby e constrangimento institucional fica no mínimo borrada.
Talvez a grande pergunta não seja quem dançou, quem brindou ou quem estava no sofá inglês do bar montado no prédio da baleia, na Avenida Faria Lima. A pergunta é quem se sentiu confortável o suficiente para estar lá.
Porque festa privada não é crime. Mas quando ela reúne o poder, a festa deixa de ser apenas privada. E aí, inevitavelmente, vira assunto público.
O verdadeiro desfile ainda não começou. Ele começa quando as luzes da investigação se acendem de vez. E, nesse dia, não vai ter pagode alto que abafe o som da planilha fechando e nem juiz que não fale português.





