
Há algo de profundamente doente num país em que uma mulher pede socorro quinze vezes – quinze – e continua sozinha. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, quatorze, quinze.
Nós estamos vivendo uma verdadeira epidemia de violência contra a mulher neste país. Não estamos diante de um descaso pontual, não é uma falha isolada, é método. É a confirmação brutal de que, no Brasil, a vida das mulheres vale menos do que a comodidade dos homens que as ameaçam.
Essa mulher de Porto Alegre não pediu favores. Ela só pediu o básico: proteção. Mudou de casa nove vezes. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove.
Ela vive como quem foge de uma guerra. Aprendeu a identificar passos, sombras, silêncios. Fez tudo o que o Estado manda fazer: registrou ocorrência, acionou patrulha, cumpriu protocolo. E, ainda assim, o agressor seguiu livre, sem tornozeleira, escondido, à espera. Quando finalmente foi levado à delegacia, o flagrante não foi homologado. Mandaram-na de volta para casa. Sozinha outra vez.
O país que falha quinze vezes antes da tragédia não erra, ele escolhe
O recado é claro e cruel: sobreviver virou responsabilidade individual de cada mulher. O Estado observa, anota, arquiva e segue adiante. Se der errado – e vai dar errado – elas virarão mais uma estatística, mais um feminicídio, as autoridades divulgarão notas de pesar, promessas de revisão e discursos indignados depois do enterro.
Agora compare esse abandono das mulheres pela Justiça com o zelo reservado aos poderosos. Um ministro de corte superior, acusado de abusar sexualmente de uma jovem de 18 anos pode, ao final do processo, ser “punido” com aposentadoria compulsória. Salário integral, honra preservada, silêncio institucional. Um desfecho limpo para quem pode ter sujado tudo. É o nojo elevado a método administrativo.
A mensagem também é inequívoca: quando o agressor veste toga, o sistema se fecha em proteção. Quando a vítima é uma mulher comum, o sistema se dissolve em burocracia. Para umas, o risco permanente. Para outros, a saída honrosa.
Feminicídio não é só o tiro, a facada, o estrangulamento. Feminicídio começa quando a Justiça se acostuma ao medo feminino, quando o Judiciário naturaliza a reincidência, quando o poder se protege e empurra mulheres para a estatística seguinte.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze. Treze mil mulheres foram assassinadas desde que a Lei do Feminicídio foi sancionada.
Portanto não é exagero dizer que, como nação, nós odiamos nossas próprias mulheres. Odiamos quando pedem ajuda demais, quando insistem em não morrer em silêncio. O país que falha quinze vezes antes da tragédia não erra, ele escolhe. E essa escolha tem sangue, medo e impunidade como política pública.





