
Existe um momento específico da vida adulta em que a pessoa deixa de ser apenas um cidadão pagador de impostos e passa a ser oficialmente um alvo fácil do mercado. Esse momento não é quando a gente casa ou quando faz trinta anos. É quando a gente entra numa loja de bebê achando que vai comprar um carrinho.
Passei o fim de semana nesse universo comprando coisas para minha filha Laila, que nasce no meio do ano. E entendendo, logo na primeira loja, que se eu quiser continuar tendo algum dinheiro sobrando, talvez precise trabalhar numa escala 7 por 7.
Porque eu tinha uma ideia muito simples do processo. Na minha cabeça, comprar um carrinho de bebê era… comprar um carrinho de bebê. Escolher, pagar, ir embora. Ingênuo.
Hoje, o que chamam de carrinho custa o que custava um Palio zero alguns anos atrás. Com a diferença cruel de que o Palio você dirigia na hora. O carrinho vem com um ser humano dentro que não sabe nem sustentar o pescoço.
E o carrinho, claro, não vem sozinho. Você compra o chassi e descobre que precisa do assento. Antes do assento, precisa do bebê-conforto. Mas o bebê-conforto tem que ser da mesma marca do carrinho, senão não encaixa. E eu achei bonito isso: até o bebê precisa respeitar o ecossistema da marca.
Quando você acha que já entendeu o esquema, entra em cena o Moisés. Confesso que, como judeu, fiquei um pouco confuso no início. Mas não, não tem nada a ver com a libertação do Egito. É só mais uma peça intermediária, absolutamente indispensável, segundo o vendedor, e absolutamente opcional segundo o seu cartão de crédito, que começa a pedir socorro.
Depois vem o berço. O berço simples, o berço três em um, o berço que vira cama, o berço que vira filosofia de vida. O três em um é genial: resolve tudo, menos o fato de custar como se fossem três berços separados, com taxa de inteligência embutida. Teoricamente, ele acompanha o crescimento da criança e também o seu processo de negação financeira, só não acompanha o seu salário.
O que realmente impressiona é a lógica da precificação. Produtos minúsculos, feitos para uma criatura de 50 centímetros que não anda, não fala e não tem qualquer noção de status social, custam como se fossem itens de luxo. Um sapatinho do tamanho de uma empanada custa mais do que um tênis que vai te acompanhar por anos. Mas ninguém discute, a gente aceita. Afinal, é pro bebê.
E aí está o truque. No meio desse parque temático do consumo parental, ninguém se sente explorado. A gente ri, parcela, faz piada e segue. Porque, no fundo, a gente sabe: ser pai é maravilhoso. Mesmo quando o mercado tenta provar que amor também pode ser vendido em doze vezes sem juros.






