
Lula resolveu enterrar o “Lulinha paz e amor” em Salvador. E não foi com flores, nem com nostalgia. Foi com palavreado de guerra, tom de palanque e uma irritação que não combina com quem ocupa o cargo mais alto da República.
No aniversário do PT, o presidente não discursou como chefe de Estado, mas como militante em aquecimento. Disse que a eleição será uma guerra. Que não há mais espaço para gente “quietinha”. Que quem publica notícia contra o governo merece ser mandado “para aquele lugar”. Não foi uma frase solta. Foi uma sequência. Uma escalada. Um ensaio geral de campanha.
É sempre útil baixar o volume para entender a ideia. E a ideia ali é cristalina. Lula não está apenas incomodado com críticas. Ele passou a tratar a divulgação de informações negativas sobre seu governo como parte do problema político. Como se notícia fosse ataque, como se pergunta fosse militância adversária. Quando isso acontece, a política começa a confundir democracia com torcida organizada.
Há um detalhe que torna tudo mais sério. Lula não falava num comício improvisado. Falava num evento oficial do partido que governa o país, cercado de ministros, governadores, parlamentares e aliados. A fala tinha endereço, público e função: marcar o início informal da pré-campanha de 2026.
Quando o presidente afirma que o que decide eleição não é resultado nem realidade, mas “narrativa”, ele faz uma confissão relevante. Porque no momento em que a narrativa passa a ser mais importante que o fato, o problema deixa de ser o adversário político. Passa a ser a realidade, essa coisa inconveniente que insiste em não caber no discurso.
O discurso também carrega uma contradição incômoda. O mesmo Lula que se apresenta como guardião da democracia adota a lógica da guerra para descrever a disputa política. Guerra pressupõe inimigo. Pressupõe desumanização. Pressupõe que quem não está comigo está contra mim. Democracia é outra coisa. É conflito, sim, mas conflito regulado. É imprensa livre. É crítica dura. É desconforto permanente para quem governa. Quando isso vira ameaça, alguma coisa saiu do lugar.
Não dá para empurrar o episódio para a prateleira dos excessos retóricos. O tom foi escolhido. As palavras foram repetidas. “Guerra”, “desaforo”, “escrachar”, “narrativa”. Isso não é deslize, é sinalização. É recado para a militância e aviso indireto para quem faz jornalismo.
A ironia é que tudo isso aparece embalado como defesa da democracia. Mas democracia não precisa de ninguém calado, de notícia deletada. Não precisa de unanimidade narrativa. Isso tem outro nome e a história mostra que raramente termina bem.
Quando um presidente troca argumento por bravata, ele não parece forte. Parece inseguro. Quando passa a tratar a imprensa como adversária, não se protege. Fragiliza o próprio sistema que diz defender. E quando a política vira guerra no discurso oficial, quem sempre perde, mais cedo ou mais tarde, é a democracia, essa coitada tão invocada quanto maltratada no debate público brasileiro.



