
O Congresso Nacional voltou do recesso com uma demonstração exemplar de eficiência. Não eficiência administrativa, nem legislativa, muito menos institucional. Eficiência para si mesmo.
Em menos de duas horas, sem alarde, sem debate, sem constrangimento, deputados e senadores aprovaram um pacote de penduricalhos que transforma o teto constitucional em mera sugestão decorativa. O truque é antigo, mas a execução foi aprimorada: texto apresentado no início da tarde, aprovado antes do café esfriar. Votação simbólica, aquela em que ninguém precisa assumir nada, nem antes nem depois. Um gol relâmpago com o portão do estádio fechado para a torcida.
O conteúdo é tão obsceno quanto a forma. Criou-se um mecanismo engenhoso para burlar o teto salarial do funcionalismo público, hoje em torno de R$ 46 mil – um valor que já não pode ser chamado exatamente de modesto. Com licenças compensatórias, indenizações criativas e uma generosa dose de cinismo institucional, salários podem agora chegar a R$ 77 mil. Não para o servidor da base, nem para o concursado anônimo. Mas para quem ocupa cargos de confiança, funções especiais, gabinetes estratégicos. Para quem já está sentado perto do poder.
O desenho é perfeito do ponto de vista da malandragem. O aumento não conta como salário, não sofre incidência de imposto, não entra no teto e não fortalece a Previdência. Um mês com quarenta dias criado por quem escreve as próprias regras. Pode até ser legal mas é moralmente podre.
Houve ainda uma tentativa quase ingênua de expor o processo. O deputado Kim Kataguiri pediu votação nominal, para que cada parlamentar tivesse de colocar o próprio nome nessa decisão. Nem isso passou. A pressa não era apenas para aprovar, mas para passar sem deixar digitais.
Tudo isso acontece no mesmo ambiente em que a cúpula da Câmara afirma não haver tempo, espaço ou prioridade para instalar uma CPI que investigue o escândalo do Banco Master. Para investigar, existe fila. Para se beneficiar, existe urgência. A hierarquia das prioridades fala sozinha.
Não se trata de um desvio ocasional. É o sistema funcionando como foi desenhado. O Judiciário abriu a porteira ao relativizar o teto com supersalários que constrangem qualquer pessoa minimamente conectada à realidade. O Legislativo apenas atravessou a porteira correndo. Já não há esforço para fingir que isso tem relação com serviço público, eficiência ou interesse coletivo. Tem a ver com poder e autoproteção.
Quando algo assim é aprovado de surpresa, em velocidade recorde, sem luz e sem debate, a mensagem é cristalina. A opinião pública virou um detalhe operacional. O cidadão, um ruído incômodo a ser contornado. Um zumbido que, se der para abafar rápido, melhor ainda. Porque quando a pressa é essa, não é eficiência. É medo de ser visto.






