
Carnaval é o único momento do ano em que adulto fantasia que não é adulto. Coloca purpurina, canta alto, esquece a planilha do Excel e finge que o mundo é um trio elétrico eterno. Só tem um detalhe incômodo: algumas pessoas não têm esse luxo.
A reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Marcia Barbosa, não é só uma foliona qualquer. Ela é a reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E isso não entra em recesso.
Dos dois vídeos que viralizaram, o que importa é um só — o que foi posteriormente apagado. Não é a dança, não é a fantasia, não é a alegria, não é a camisinha. É o gesto. O “faz o L”. Claro, explícito, inconfundível. Não é um aceno à democracia, não é um símbolo abstrato de esperança. É a marca política associada ao presidente Lula.
Ela foi nomeada por ele, é natural que tenha afinidade. E é importante pontuar que isso não é crime e nem pecado. Mas não ser crime nem pecado não é a mesma coisa que ser prudente.
Porque a UFRGS não é do Lula. Não é do PT. Não é do governo da vez. A UFRGS é uma instituição de Estado, financiada pelo contribuinte gaúcho – inclusive por quem jamais fez o “L” e talvez jamais fará.
Há cargos que não são como casacos. Não se tira para ir ao bloco e depois se veste de novo na segunda-feira. O peso simbólico vai junto. A função pública acompanha a pessoa, especialmente quando ela é a chefe máxima de uma instituição que deveria ser, por definição, plural.
Universidade não é diretório partidário. É espaço de divergência. É o lugar onde convicções colidem e convivem. Quando a autoridade máxima da casa assume publicamente um lado, ainda que em ambiente festivo, o recado pode ser lido como alinhamento institucional. E autonomia não combina com torcida organizada.
É ilegal? Claro que não. Mas a pergunta relevante raramente é jurídica. É institucional. É sobre liturgia do cargo, essa palavra que parece antiquada até o dia em que deixa de existir.
O Brasil vive de símbolos, e o “L” é um símbolo de campanha. Em ano pré-eleitoral, mais ainda. Não é neutro, não é inocente, é um posicionamento explícito.
E não se trata de censurar opinião privada. Trata-se de reconhecer que quanto maior o cargo, menor a margem para gestos partidários ostensivos. A vida privada existe, claro. Mas não é porque há confete no ar que o cargo evapora. No carnaval tudo parece leve. Mas a instituição não é leveza, é responsabilidade.
Quando a música acaba e a fantasia volta para o armário, o que permanece não é o vídeo engraçado no WhatsApp, é a dúvida: ela representava só a si mesma, ou representava também a universidade?






