
Há momentos em que o noticiário parece escrito pelo mesmo roteirista cansado, aquele que mistura absurdo, indignação seletiva e uma incapacidade coletiva de lidar com limites. Como o Banco Master certamente seguirá no foco das atenções, me reservo o direito de, ao menos neste fim de semana, trazer boas notícias nesta coluna.
A última semana terminou com uma revolta política dentro de um jogo infantil e, quase ao mesmo tempo, com uma lição básica de institucionalidade aplicada na maior cidade do país.
O universo colorido do Roblox – uma plataforma online de jogos e criação – decidiu cometer um dos grandes pecados capitais desta era: proteger crianças. Endureceu regras de chat, passou a exigir verificação de idade, estabeleceu que crianças conversem com crianças e que adultos não podem ter acesso livre a elas.
O resultado foi uma manifestação virtual com avatares marchando, cartazes mal escritos, referências confusas à Revolução Francesa e até citações deslocadas de músicas de Chico Buarque. A liberdade, ao que tudo indica, estava sendo oprimida por filtros etários.
É cômico, sim, mas também profundamente revelador. Qualquer mediação virou censura, qualquer “não” virou violência e crescer, como indivíduo e como sociedade, passou a ser entendido como opressão.
Agora, mudemos o foco para São Paulo. A irmã do prefeito, Ricardo Nunes, foi presa na capital após ser identificada pelo Smart Sampa, o sistema de câmeras de segurança implantado pela própria gestão municipal. Havia mandados em aberto e a prisão foi executada. O surpreendente, mesmo, veio depois: não houve atalho, telefonema salvador ou exceção discreta. Mais que isso, a prefeitura fez questão de afirmar o óbvio: a lei vale para todos, inclusive para a família do prefeito.
É o mínimo? É. Mas num país onde as autoridades não consideram suspeito a esposa de um ministro da Suprema Corte advogar, por centenas de milhões de reais, para um banco que responde a processo no próprio Supremo, o mínimo já merece menção honrosa.
No caso da irmã de Nunes, por incrível que pareça, o sistema funcionou justamente quando poderia ter sido desmoralizado. E a resposta institucional não tentou dourar a pílula nem terceirizar responsabilidade. Assumiu o fato como prova de que regras, quando bem desenhadas, não escolhem sobrenomes.
O elo entre as duas histórias é simples: limites. Regras que funcionam mesmo quando desagradam, seja um chat filtrado num jogo infantil, seja uma câmera na rua identificando quem precisa responder à Justiça. O choque não é com a tecnologia, é com a ideia de que nem tudo pode, nem todo mundo passa, e que amadurecer como sociedade e com o indivíduo também passa por aceitar o “não” e arcar com as consequências do sim.





