
Existe uma tentação confortável na política internacional: acreditar que autoritarismos se resolvem com boas intenções, notas diplomáticas e fóruns multilaterais. A experiência histórica mostra outra coisa. Autoritarismo é autoritarismo, independentemente do rótulo ideológico, e raramente recua por convencimento moral. Ele cede quando sente pressão real.
A Venezuela deu, recentemente, um exemplo dessa lógica. O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, anunciou a libertação de presos políticos – aqueles que o regime insistia em negar que existissem. O gesto foi apresentado como iniciativa de paz e sucedeu a captura de Nicolás Maduro por forças americanas, episódio que reabriu o debate sobre legalidade internacional e limites de atuação externa. É legítimo questionar o método. Mas é preciso reconhecer o dado concreto: o regime recuou, e pessoas começaram a sair da prisão.
No Irã, o que está em curso é mais grave, mais violento e mais revelador. O país enfrenta a maior onda de protestos em anos. Manifestações tomaram diversas cidades. Pessoas comuns, que vivem sob vigilância permanente, foram às ruas gritar “morte ao ditador”. Isso não é ruído social, nem crise conjuntural. É um levante contra um regime teocrático, fanático, assassino e sanguinário que governa pelo medo desde 1979.
A resposta do Estado iraniano é a de sempre: bala, prisão, tortura, internet cortada e mentira oficial. Um sistema fundamentalista que trata mulheres como cidadãs de segunda classe, controla seus corpos por lei, impõe o véu sob ameaça de chibatadas e transforma desobediência em crime. Não é tradição cultural. Não é diferença civilizatória. É barbárie institucionalizada, sustentada por uma máquina repressiva que não hesita em matar para sobreviver.
Mesmo assim, parte da imprensa ocidental insiste em reduzir tudo a uma crise econômica. Como se inflação explicasse mulheres enfrentando forças armadas. Como se desemprego explicasse jovens arriscando a vida para derrubar um regime religioso, autoritário, demoníaco. Instituições importam, mas não são sagradas. Quando viram escudo para opressão, perdem qualquer legitimidade moral.
Há quem diga que a Venezuela não serve de exemplo porque a pressão veio de fora. No Irã, ela veio de dentro. Veio do povo. Das ruas. De quem apanha, é preso, é silenciado e ainda assim não recua. Ignorar isso em nome de uma neutralidade confortável é escolher o lado dos açougueiros de Teerã.
A geopolítica nunca foi limpa. Mas fingir neutralidade diante de um regime assassino é tomar o partido dos criminosos. Se o regime iraniano cair, não será apenas uma mudança interna. Será uma derrota clara do autoritarismo e do fundamentalismo religioso sem relativização, sem desculpa e sem romantização da tirania.




