
A permanência de Dias Toffoli à frente do caso Banco Master já ultrapassou o terreno da controvérsia técnica e entrou no terreno do constrangimento institucional. Não é preciso provar crime, não é preciso antecipar culpa, não é preciso vestir toga de acusador. Basta ter um mínimo de noção do que qualquer país que se pretenda sério entende como limite.
O problema não é apenas jurídico. Ele é estético, moral, simbólico e, acima de tudo, político.
Quando um ministro do Supremo insiste em permanecer num processo cercado por relações pessoais, familiares e financeiras que se acumulam como manchas impossíveis de ignorar, ele não está defendendo a lei, e sim testando a resistência da opinião pública. E o Brasil já demonstrou, muitas vezes, que aguenta quase tudo. Mas não deveria.
A reportagem do portal Metrópoles apenas escancarou o que já vinha se desenhando como um roteiro de mau gosto. O Resort Tayayá, hotel de luxo ligado à família do ministro, comprado por um fundo investido pelo cunhado de Daniel Vorcaro, é conhecido na região como “resort do Toffoli”. Não por perseguição política, não por teoria conspiratória, mas por hábito local.
E não estamos falando de uma pousada bucólica com trilha ecológica e tofu mexido no café da manhã. Estamos falando de um resort com um cassino. Caça-níqueis, mesas de blackjack, tudo valendo dinheiro. Um pedacinho de Las Vegas plantado no interior do Paraná, num país onde esse tipo de jogo segue oficialmente proibido.
Não é boato. Jornalistas se hospedaram lá. Entraram, viram, registraram. Não é sequer fofoca de bastidor, é a realidade documentada.
E, como se o Brasil tivesse um senso de humor especialmente cruel, vale lembrar que em 2020 o Supremo decidiu permitir que estados explorassem as chamadas videoloterias. O relator? Gilmar Mendes. Quem votou com o relator? Toffoli. Coincidência? Talvez. Mas coincidências também cansam quando se acumulam demais.
É deste ministro que estamos falando, é este o relator do caso Master, que potencialmente é o maior e mais escandaloso caso de corrupção da República.
O Brasil já convive há tempo demais com um Judiciário que se comporta como uma casta intocável, formada por verdadeiras dinastias jurídicas que transitam com naturalidade entre escritórios de luxo, tribunais superiores e jantares com a nata da política e do empresariado nacional. E convive, também, com um Congresso que olha para o teto – de vidro, claro – quando deveria olhar para o plenário.
Não é possível que Dias Toffoli continue à frente desse processo.


