
A primeira pesquisa eleitoral do ano saiu sem fogos de artifício, mas com aquele barulho incômodo que não deixa ninguém dormir direito. A Quaest mostra 49% desaprovando o governo de Lula e 47% aprovando. É um empate técnico, desses que não dão entrevista coletiva nem justificam brinde. Um empate de mau humor. Não é “está tudo bem”. É “ninguém aguenta mais”.
Quando a pesquisa abandona o binário do aprova/desaprova e entra na avaliação do governo, o retrato fica ainda mais desconfortável. O negativo aparece com 39%, o positivo com 32% e o regular com 27%. Traduzindo sem delicadeza: o país não está encantado. Está contrariado ou indiferente. E indiferença, em política, é terreno fértil para qualquer coisa. O “tanto faz” é o corredor por onde passam o aventureiro, o messias improvisado, o radical com slogan curto e promessa longa.
A pergunta mais simples da pesquisa é também a mais dura: Lula merece mais quatro anos? Para 56%, não. Para 40%, sim.
O dado é pesado porque revela um padrão conhecido da política brasileira. O presidente pode ser competitivo, pode liderar cenários, pode até vencer, mas não necessariamente entusiasma. Ganha mais por estrutura, memória afetiva e rejeição do outro lado do que por euforia real. É a diferença entre “eu quero” e “eu aceito”.
Na economia, o Brasil continua exercitando sua habilidade favorita: sustentar dois sentimentos opostos ao mesmo tempo. Nos últimos 12 meses, 43% dizem que a economia piorou. Em dezembro, eram 38%. O mau humor cresceu. Mas, quando olham para os próximos 12 meses, 48% acreditam que vai melhorar. Eram 44%. O brasileiro olha para o presente e reclama, mas compra o carnê da esperança. Sofre hoje apostando que amanhã vai dar certo.
Só que a vida real insiste em interromper a promessa. E ela faz isso pelo lugar menos ideológico possível: o mercado. O preço da comida. Para 58%, os alimentos subiram no último mês. Política econômica é elegante em seminário. Na prática, ela se chama tomate. E o tomate não faz discurso, não pede paciência e não aceita explicação técnica.
O dado do poder de compra é, ao mesmo tempo, um alívio tímido e um alerta estrondoso. Caiu de 69% para 61% o número dos que dizem ter menos poder de compra do que há um ano. Melhorou? Um pouco. Mas ainda é uma maioria larga dizendo que empobreceu na prática. No emprego, o retrato se repete: 49% acham que está mais difícil conseguir trabalho; 43%, mais fácil. Outro empate. Outro país rachado ao meio. Cada brasileiro vivendo um Brasil diferente e todos absolutamente convencidos de que o seu é o real.
No núcleo eleitoral, Lula lidera todos os cenários de primeiro turno, na casa dos 35% a 40%. Quando aparece Flávio Bolsonaro, ele surge como principal nome da oposição em vários recortes. Cresce, encosta, se consolida como identidade de um campo. Porque o Brasil não discute apenas projetos. Discute pertencimento. Quem você é contra quem eu sou. Quem você teme contra quem eu temo.
No segundo turno, Lula vence todos os cenários testados. As vantagens vão de cinco a vinte pontos. Mas há um dado que chama atenção: a menor diferença é contra Tarcísio de Freitas. Lula tem 44, Tarcísio 39. Em relação a dezembro, Lula oscila um ponto para baixo. Tarcísio sobe quatro. A distância cai pela metade. Não é um detalhe. É o sinal mais claro de que existe espaço para um nome fora do núcleo mais barulhento da guerra familiar que domina a política brasileira há uma década.
A pesquisa não confirma nem o triunfo da revolução nem o apocalipse do comunismo. Ela mostra um país exausto. Lula vence mais por falta de alternativa do que por entusiasmo. A desaprovação é alta, mas não vira automaticamente voto contra. A economia promete futuro, mas entrega um presente caro. A oposição tem números, mas não tem projeto unificado. No fim, a militância grita como se tudo estivesse decidido.
E a realidade faz o que sempre faz no Brasil: empurra todo mundo para um empate desconfortável, onde ninguém ganha fácil e todo mundo jura que já ganhou. Quem tinha razão, mesmo, era a ex-presidente Dilma Rousseff, quando disse que “quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder, vai todo mundo perder”.




