
Em dezembro, Andressa Xavier escreveu que os casos de feminicídio estavam lhe tirando a paz. Não era figura de linguagem, era um diagnóstico. Menos de um mês depois, já em janeiro, ela precisou voltar ao tema para registrar o primeiro feminicídio noticiado de 2026. Não por insistência pessoal, mas porque o país insiste.
Ontem, outro episódio escancarava a mesma lógica, só que embalado como entretenimento. Um dos concorrentes mais constrangedores da história do Big Brother Brasil, o curitibano Pedro Espíndola, tentou encenar uma saída relativamente “digna” do programa. Disse que estava pedindo para sair, que a cabeça não estava bem.
Que a cabeça não estava bem é fato incontestável. Mas ele não saiu, ele correu. Fugiu de uma expulsão que já estava desenhada. Fugiu porque percebeu, tarde demais, que o país inteiro tinha visto o que ele fez.
O roteiro é conhecido: primeiro, o sujeito testa os limites. Uma piada deslocada aqui, uma invasão de espaço ali, um comentário “mal interpretado” acolá. Depois, quando ninguém reage com força suficiente, ele avança. Foi o que aconteceu. Dentro de uma despensa, longe do convívio comum, mas não longe das câmeras, ele segurou uma mulher pelo pescoço e tentou beijá-la.
Depois de afastá-lo, diante do absurdo que acabara de viver, sua primeira reação foi de hesitação. Ela não gritou, sequer o acusou imediatamente, e passou a questionar o que tinha acontecido. Tentou entender se o assédio que sofrera era mesmo um assédio.
Isso não é fraqueza individual, é condicionamento social. Mulheres são treinadas, desde cedo, a duvidar da própria percepção quando o desconforto envolve um homem. São ensinadas a revisar o episódio, a relativizar o gesto, a medir o dano antes mesmo de reconhecer a violência. Uma consequência trágica da naturalização secular da crença de que o corpo da mulher é território livre.
Há quem diga que é inacreditável um homem fazer isso diante de dezenas de câmeras, com microfones ligados, sabendo que milhões assistem. Mas talvez essa incredulidade seja parte do problema, porque ela pressupõe que o freio moral vem da vigilância, e não da convicção. Pressupõe que o erro está no risco de ser pego, não no ato em si.
O que vimos não é um caso isolado. Não é um “desvio individual”. Não é um homem “confuso”. É a manifestação crua dessa ideia que atravessa os séculos e ainda encontra abrigo confortável na modernidade: a de que o corpo da mulher pode ser testado, avançado, pressionado, e que depois tudo se resolve com um pedido de desculpas mal ensaiado.
Não é uma pauta identitária, não é guerra cultural, é civilidade básica. É o limite mínimo que separa a civilização da selvageria. E o fato de ainda ser necessário explicar, repetir e televisionar diz muito mais sobre nós do que um assediador específico de um reality show.
As mulheres vêm falando disso há décadas com cada vez mais intensidade. Escrevem, denunciam, avisam, gritam quando conseguem e quando não conseguem, também. Talvez tenha chegado a hora dos homens que ultrapassaram o estágio neandertal falarem mais – não para aparecer, não para performar virtude, mas para constranger os bárbaros. Para deixar claro que esse comportamento não é mais tolerável nem nos bastidores. Porque constrangimento também educa e parece que não está sendo o suficiente.



