
O caso do Banco Master não choca apenas pelo tamanho do escândalo. Ele incomoda porque ultrapassa aquele nível de imoralidade ao qual o Brasil, tragicamente, já se acostumou. Existe um ponto em que a coisa deixa de ser “mais um absurdo” e vira outra coisa. Vira método. Vira inversão moral. Vira aquele momento em que quem age para conter o crime passa a ser tratado como suspeito.
Essa dinâmica não é nova. É quase um folclore institucional. Toda grande operação anticorrupção do país termina mais ou menos do mesmo jeito: gente poderosa se livra, processos são anulados, e o Ministério Público ou a Justiça saem carimbados como vilões da história. Não porque sejam infalíveis – definitivamente não são – mas porque, no Brasil, investigar gente grande costuma ser mais imperdoável do que roubar.
No caso do Master, o roteiro inicial era até banal. O Banco Central do Brasil liquidou o banco depois de uma investigação da Polícia Federal que levou à prisão do dono, Daniel Vorcaro, sob suspeita de fraude financeira e venda de títulos falsos. Um banco em colapso, uma investigação criminal em curso e o regulador cumprindo sua função básica de agir rápido para evitar risco sistêmico.
Até que o barulho começou.
O Tribunal de Contas da União resolveu entrar em cena do jeito mais ruidoso possível. O relator do caso, o ministro Jhonatan de Jesus, alegou que a nota técnica do Banco Central não trazia documentos suficientes para justificar a liquidação. E foi além: determinou, sozinho, uma inspeção presencial no BC, em caráter de “máxima urgência”, com insinuações de medidas cautelares que poderiam, inclusive, travar atos da liquidação.
Não é controle institucional. É intimidação. Um acinte que não serve a ninguém, exceto ao banqueiro investigado.
O Banco Central reagiu como qualquer órgão sério reagiria, lembrando que inspeção não é decisão monocrática, que o regimento do próprio TCU exige deliberação colegiada, e pediu que o assunto fosse levado à Primeira Câmara. O básico do básico, como se diz por aí.
A resposta veio num gesto tão sincero quanto constrangedor. O presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, autorizou a inspeção e saiu em defesa do relator com um discurso sobre “prerrogativas” e “controle externo”, como se alguém estivesse sugerindo que o tribunal se ajoelhasse diante do Banco Central. Não era isso, era só observar o regimento. Mas, em Brasília, recuar costuma ser confundido com fraqueza.
No meio dessa disputa de vaidades institucionais, o essencial foi empurrado para escanteio. O Banco Central é a autoridade monetária do país. É quem tem o dever de agir rápido quando o risco é sistêmico. E, de repente, passou a ser tratado como se precisasse provar que não agiu por birra, capricho ou vingança, num roteiro que a Justiça vem repetindo nos últimos tempos. É a lógica perversa de sempre: a culpa migra do fraudador para quem interrompeu a fraude.
Tudo isso já seria muito ruim. Fica ainda pior quando a gente lembra que no fim do ano, o ministro Dias Toffoli marcou uma acareação entre os envolvidos, numa dinâmica que desloca o foco do banco investigado para o fiscal do banco antes mesmo de qualquer depoimento tomado das partes. Como se o problema precisasse ser reenquadrado, reembalado, suavizado. Para quem?
O resultado é essa ousadia calma, quase elegante. O sistema se protege em tempo real, sem pressa, sem constrangimento. Vorcaro deixa de ser apenas um nome e vira uma sombra grande demais, capaz de produzir silêncios em gente demais. A sensação é a de que o problema não é o que aconteceu, mas o que ainda pode ser dito pelo banqueiro fenômeno.
O detalhe que ajuda a entender o clima é revelador. O ministro que questiona a liquidação do banco não é economista, nem estatístico, nem especialista em sistema financeiro. É médico. Foi indicado ao cargo em 2023, com apoio do então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), um dos homens mais poderosos do país. Nada de ilegal nisso, claro, é a regra. Mas é absolutamente tudo político.
Mas a cretinice não para por aí, não. No fim do dezembro mais longo da história de Brasília, redes sociais passaram a ser inundadas por perfis gigantescos – muitos sem qualquer relação com economia ou direito – defendendo o Banco Master e atacando o Banco Central. Mesma narrativa, mesmo tom, mesmo timing. Não era opinião, era coreografia ensaiada com um pix no final do espetáculo.
Dois convites recusados ajudaram a iluminar o palco. O vereador Rony Gabriel e a jornalista Juliana Moreira Leite, a Julie Milk, como é conhecida no Instagram, contaram que foram procurados por uma empresa de “gerenciamento de crise”, com dinheiro à beça, contrato de confidencialidade e discurso pronto. A missão era simples: vender a tese de que o banco era vítima do sistema e que o regulador havia agido mal.
A campanha aconteceu mesmo assim. A Febraban confirmou um volume atípico de postagens contra o Banco Central no período e avalia se houve ataque coordenado. Avalia porque é uma federação, porque, convenhamos, é difícil chamar de coincidência.
Tudo isso enquanto investidores seguem sem receber um centavo. Não só os grandes tubarões da Faria Lima, mas aposentados, fundos de pensão, gente que depende desse dinheiro para pagar a vida. O Fundo Garantidor de Crédito nem conseguiu iniciar os reembolsos porque a lista de credores não foi liberada.
Enquanto há gente esperando dinheiro para sobreviver, outra parte do sistema torra milhões com influenciador para desmoralizar a autoridade monetária do país. Não é marketing. Não é opinião. É uma tentativa deliberada de contaminar o debate público, emparedar o regulador e ganhar tempo.






