
Chico Buarque escreveu a música Flor da Idade — inspirada no poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade — para falar de relações que se repetem, se cruzam e se justificam a si mesmas.
“Carlos amava Dora, que amava Lia, que amava, Léa que amava Paulo, que amava Juca, que amava Dora, que amava … toda a quadrilha”. Não há vilões claros nem heróis evidentes. Há um movimento circular em que todos parecem apenas cumprir o papel que lhes cabe.
O escândalo do Banco Master funciona de modo parecido. Ele não se impõe como um caso clássico de corrupção. O que ele expõe é um circuito de relações espúrias, decisões absurdas, silêncios estratégicos e justificativas técnicas que formam um padrão constrangedor impossível de se ignorar. Não é um problema restrito ao sistema financeiro, é um problema de funcionamento do Estado.
Nesse ambiente, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes surgem não como réus de um processo inexistente, mas como símbolos de um método que se consolidou nos últimos anos: o da excepcionalidade permanente. Cada ato, isoladamente, até encontra respaldo formal. O problema aparece quando essas exceções deixam de ser episódicas e passam a se encadear.
É nesse ponto que o Banco Master deixa de ser um escândalo específico e se transforma em sintoma. Ele revela um sistema em que relações pessoais e institucionais se misturam, em que a proximidade substitui o constrangimento e em que o silêncio passa a ser tratado como virtude.
Um sistema em que não é suspeito que um ministro, cuja esposa presta um serviço milionário para o banqueiro-réu, discuta o caso do banco com o presidente do Banco Central. Onde é normal a família do relator do processo ter feito negócios milionários com o cunhado do banqueiro.
Na música que citei no início desta coluna, os personagens giram sem perceber que estão presos à própria lógica. No Brasil institucional, a engrenagem é mais sofisticada, mas o movimento é o mesmo. Se esse escândalo – que tem tudo para ser o escândalo da década, pelo menos – virasse música, seria assim:
Toffoli, que amava o irmão,
que amava o hotel,
que amava o cunhado,
que amava Vorcaro ,
que amava o Congresso,
que amava o Master,
que amava a esposa,
que amava Moraes,
que amava Galípolo,
que amava o Banco Central,
que amava a estabilidade,
que amava o silêncio,
que amava Toffoli,
que amava…
Não há sentença no poema, tampouco no sistema.
Há apenas a repetição, a desfaçatez, a falta de constrangimento de um judiciário composto por semideuses, a falta de coragem do Congresso Nacional e a certeza de que, para eles todos, o povo – o que não passou as festas de fim de ano num resort no norte do Paraná, é claro – é muito otário.
A diferença entre um ministro do Supremo Tribunal Federal e Deus é que Deus não pensa que é ministro do Supremo Tribunal Federal.





