
Que fim de semana. O noticiário resolveu montar um pequeno catálogo de machos alfa brasileiros, aqueles homens convencidos de que são melhores que o resto do mundo e, portanto, autorizados a fazer o que bem entendem com o dinheiro, com o corpo e até com a vida dos outros.
Na noite de sexta-feira, Daniel Vorcaro deixou a cadeia cercado de advogados como quem sai de um ginásio: chinelo, camiseta branca e boné segurando a cabeleira intacta. Nada que lembrasse o símbolo recente do “juro impossível”, o banqueiro por trás de um modelo que prometia até 40% acima da taxa básica e terminou na liquidação do Banco Master pelo Banco Central.
A decisão da Justiça reconhece, no papel, a gravidade do caso e o tamanho do rombo, mas conclui que agora medidas alternativas à prisão são suficientes para proteger a sociedade, a ordem econômica e as investigações. Tornozeleira, passaporte retido, proibição de contato com outros investigados, tudo dentro da lei. Difícil é conciliar essa linguagem técnica com o cenário que veio na sequência: Vorcaro confidenciando que comemoraria a liberdade abrindo um Sassicaia safra 2011, vinho italiano de cerca de seis mil reais a garrafa.
É quase uma metáfora involuntária do país. De um lado, investidores e servidores de banco público tentando entender onde foram parar as economias, os bônus, os fundos. Do outro, o principal alvo da operação celebrando com um rótulo de luxo, como se a prisão fosse apenas um contratempo desagradável entre um brinde e outro. Nenhuma palavra pública sobre os clientes, sobre o estrago no BRB, sobre a confiança esfarelada no sistema. Apenas a reafirmação silenciosa de uma elite que enxerga a justiça como inconveniente temporário. Preso e condenado mesmo costuma ser o crédito de quem acreditou no milagre financeiro, não quem o vendeu.
No dia seguinte, o roteiro muda de cenário, mas repete a mesma lógica de mundo. Entra em cena o “Calvo do Campari”, influenciador que fez fama vendendo “cursos de masculinidade” e vídeos sobre “a realidade dos relacionamentos”. Foi preso acusado de agredir a namorada depois que ela disse “não” a uma relação sexual.
O boletim de ocorrência fala em tapas, chutes, puxão de cabelo e tentativa de estupro. Um laudo pericial aponta ao menos onze agressões, com marcas claras de tentativa de defesa. A versão dele é a de sempre: foi só para afastar, foi um mal-entendido, ela é quem teria partido para cima primeiro. A engrenagem jurídica se move, prisão, audiência de custódia, liberdade provisória, medidas protetivas. A vítima está viva porque teve tempo de fugir, correr para a rua e encontrar uma viatura no caminho.
Também não é a primeira vez que esse personagem aparece nas páginas policiais. Ele já foi denunciado por ameaça e violência psicológica contra mulheres que o criticaram nas redes, com mensagens do tipo “24 horas para tirar o conteúdo, depois disso, processo ou bala”. O padrão está dado: um homem que confunde divergência com afronta e responde à discordância com intimidação. A internet ajudou a transformar isso em carreira. Ninguém vira coach sozinho. Centenas de milhares de seguidores olharam para aquele jeito de falar de mulheres, sexo, poder e disseram: “esse cara me representa”.
E, quando parecia que o fim de semana já tinha dado o recado, veio o domingo com a história de Taynara Souza Santos, 30 anos, mãe de dois filhos, trabalhadora de uma agência de comércio eletrônico, arrastada por um carro na Marginal Tietê. Ela perdeu as duas pernas depois de ser atropelada e levada presa do lado de fora do porta-malas de um veículo preto.
Os relatos da família falam de uma mulher alegre, brincalhona, que trabalhava, cuidava dos filhos, planejava a própria vida. As imagens de câmera de segurança mostram que Taynara estava andando a pé, acompanhada de um rapaz, até ser atingida pelo carro que a arrastou por metros. A polícia investiga o caso como tentativa de feminicídio e aponta como suspeito Douglas Alves da Silva, que a perseguia há tempos e está foragido.
Aqui, a masculinidade tóxica larga de vez a fantasia de coach e a pose de empresário. Ela aparece crua, como violência extrema, como perseguição, como tentativa de assassinato em plena Marginal. Não há discurso motivacional, não há rótulo de vinho caro que suavize a cena de uma mulher presa ao carro, mutilada, entre a vida e a morte, porque um homem não aceitou que ela não queria mais se relacionar com ele.
O que une o banqueiro do Sassicaia, o coach do Campari e o desgraçado foragido da Marginal não é só a ficha criminal ou a coincidência de datas. É a mesma narrativa de superioridade. Um se acha dono do dinheiro dos outros. Outro se acha dono do corpo da mulher com quem está. O terceiro se comporta como dono da vida de uma ex, a ponto de transformá-la em alvo na pista. Em todos os casos, a mesma ideia atravessa: regras, limites e consequências são para os outros.
Não é necessário igualar crime financeiro, agressão doméstica e tentativa de feminicídio. Cada um tem sua gravidade, sua tipificação, sua pena. Mas há uma raiz comum que a gente se recusa a encarar: um modelo de masculinidade que ensinou gerações de homens a confundir poder com licença permanente. A sensação de que, se tenho dinheiro, mando; se tenho audiência, mando; se estou ao volante, mando. E, se alguém ousa dizer “não”, a resposta vai do contrato fraudulento à ameaça, do tapa ao atropelamento.
O Brasil terminou o fim de semana com três símbolos dessa doença social. O banqueiro do vinho de seis mil reais, o coach que não aceita um limite na cama e a imagem insuportável de uma mulher trabalhadora, mãe de dois filhos, mutilada na Marginal por um homem que não aceitou ser seu ex. Enquanto esse tipo de cretino for tratado como referência de sucesso, esperteza ou virilidade, o mau humor não é exagero. É luto, é defesa, é higiene psíquica básica.






