
Esta não foi apenas mais uma semana agitada em Brasília. Foi um inventário da falência moral do Estado brasileiro. Temos um sistema inteiro que já não faz esforço nem para simular pudor, como outrora.
No topo, o caso Banco Master arrancou a fantasia da toga virtuosa. A Polícia Federal investiga um banco em ruína e encontra contrato milionário com o escritório da esposa de Alexandre de Moraes. Outro ministro, Dias Toffoli, embarca em jatinho para a final da Libertadores ao lado do advogado de executivo do mesmo banco, no dia em que é sorteado relator do caso e impõe sigilo. A fronteira entre quem julga e quem é julgado virou porta giratória.
Pressionado pela indignação geral, Gilmar Mendes anunciou um “recuo” na liminar que blindava ministros contra impeachment. Mas foi um recuo de fachada: a Corte segue ditando, ela própria, as regras de quando – e se – poderá ser responsabilizada.
Nesse cenário, a iniciativa do presidente do tribunal, Edson Fachin, de propor um código de conduta inspirado no modelo alemão soa comovente. Enquanto ele fala em transparência e regras morais, seus colegas seguem em jatinhos de empresários com advogados de processos que julgam, suas famílias firmam contratos com bancos sob investigação e eles decretam sigilos absolutos em casos de enorme interesse público.
Do outro lado da Praça, a Câmara cuidou dos seus. Diante da chance de afirmar que mandato não é salvo-conduto para atirar, invadir, insultar e agredir, os deputados escolheram o corporativismo. Livraram Carla Zambelli da cassação e transformaram a punição de Glauber Braga em suspensão de seis meses. Não foi defesa da democracia nem amor ao contraditório. Foi medo de criar precedente num clube em que quase todos têm algo a temer.
Quando a Câmara afronta a Constituição para preservar mandatos e, em seguida, o Supremo intervém para anular a votação e decretar a perda de cargo, não há um Poder virtuoso corrigindo o outro. Há duas instituições que se merecem: uma invoca a “soberania do plenário” para absolver aliados; a outra recorre à caneta solitária para redesenhar o alcance da Carta. Juntas, testam até onde vai a paciência de um país exausto.
A falência moral não sai em diário oficial. Ela se revela quando jatinhos, contratos, sigilos e absolvições corporativas deixam de chocar e viram munição de guerra entre facções de toga e de terno. Quando até as raras tentativas de moralizar o sistema parecem deslocadas e frágeis.
Poucas coisas corroem tanto a confiança coletiva quanto a sensação de que “lá em cima” nada presta. Se o Estado quiser voltar a ser levado a sério, não bastará importar códigos de ética ou trocar nomes nas placas. Vai exigir algo simples, e por aqui quase revolucionário: aceitar que ninguém, por mais poderoso que se julgue, está acima de responder pelos próprios atos.




