
Três episódios distintos mas absolutamente conectados evidenciam o estado de putrefação moral de uma sociedade que parece não querer mais conversar.
O primeiro caso é o da Bienal de São Paulo, que cancelou a palestra de uma princesa belga, feminista e ambientalista, porque o bisavô dela foi um monarca colonialista sanguinário. A convidada era a princesa Marie-Esmeralda, sobrinha-bisneta de Leopoldo II, rei que, de fato, promoveu atrocidades inomináveis no Congo, sendo responsável pela morte violenta de algo entre 1 e 15 milhões de congoleses no século 19. Só que o evento não havia convidado Leopoldo II, falecido mais de 100 anos atrás. A convidada era sua sobrinha-bisneta, que tem uma trajetória de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, além de diálogo com lideranças indígenas, inclusive brasileiras, como o cacique Raoni.
Ou seja, a princesa foi punida pelos crimes de um ancestral. E a pergunta que fica é: quem passaria incólume por uma varredura criminal que chegasse até a quinta geração dos seus antepassados? Eu não ponho a mão no fogo pelos meus. A Bienal, que deveria ser palco da diversidade, acabou praticando o oposto: um cancelamento em nome da pureza histórica.
O segundo episódio envolve a assessora especial da Presidência, Clara Ant, judia, militante histórica do PT com longa trajetória de atuação política. Ela foi convidada para participar da convenção anual da Confederação Israelita Brasileira (Conib), mas parte da comunidade reagiu mal ao convite feito pela entidade que representa os judeus brasileiros. Antes mesmo do evento começar, já havia quem a considerasse “inadequada” para a ocasião. Um tipo de veto preventivo em nome de uma pureza ideológica e uma coesão política que não existe em nenhum grupo social, seja ele religioso ou não.
O presidente da Conib, Claudio Lottenberg, relembrou no seu discurso de abertura da convenção que a liberdade religiosa e o respeito à diversidade são pilares de uma sociedade verdadeiramente justa e democrática. E arrematou falando aquilo que muita gente prefere ignorar: “A comunidade judaica é plural e é justamente essa pluralidade que a CONIB busca representar: judeus religiosos e laicos, progressistas e conservadores, judeus de todas as correntes”.
Não foi o suficiente para que a própria Clara Ant não desse uma amostra de que pensa exatamente como aqueles que não a queriam no evento. Quando o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, começou a criticar o presidente Lula em seu discurso, ela se levantou e foi embora. Ou seja, quem havia sido alvo de intolerância também reproduziu o mesmo gesto de não ouvir.
Três situações distintas unidas pela mesma síndrome: o medo da convivência com o diferente.
No caso da princesa, o cancelamento é genealógico – herda-se o pecado do parente distante mesmo que sua vida tenha sido dedicada ao oposto daquilo que o seu tio-bisavô genocida pregava e executava. No caso da comunidade judaica, é ideológico – o desconforto com quem não se encaixa no pensamento dominante do grupo. E no da assessora do presidente Lula, é emocional – a dificuldade de permanecer quando o discurso fere o próprio lado.
A lógica, porém, é a mesma: transformar o espaço público num confessionário, onde só fala quem pensa igual. E o resultado é esse Brasil que vai se tornando um país de gente ofendida e indisposta a dialogar.
A Bienal cancela em nome da “diversidade”. Parte da comunidade cancela em nome da “coerência”. A assessora se retira do evento em nome da “lealdade”. Três formas diferentes de negar o encontro e todas com o mesmo efeito: o silêncio.
Defender a diversidade de verdade não é reduzir o outro a um cardápio de afinidades, é suportar o desconforto de estar diante do outro sem precisar eliminá-lo. É a coragem de ficar numa sala onde nem todo mundo pensa como você.
E é justamente aí, nesse espaço incômodo entre a diferença e a escuta, que a democracia começa – ou acaba.



