
Os últimos dias produziram um retrato desconfortável da política brasileira: quando a maré sobe para um lado, ele sempre dá um jeito de furar o próprio barco. A oposição tinha diante de si a chance rara de assumir o centro do debate público. A operação no Rio havia deslocado o tema da segurança para o coração da agenda nacional, com apoio popular evidente e um governo cambaleando nas declarações. Era a hora perfeita para respirar fundo, organizar discurso, mostrar coordenação. Em vez disso, tropeçou nos próprios passos.
A escolha de Guilherme Derrite como relator do PL Antifacção poderia ter sido um desses movimentos calculados que reorganizam o tabuleiro. A direita ganhava musculatura com o secretário de Segurança de Tarcísio, o governo já vinha na defensiva, e as bases bolsonaristas enxergavam ali uma vitrine para recuperar protagonismo. Só que a vitrine virou espelho: um texto ruim seguido de outro ainda pior, revisões apressadas, idas e vindas entre Congresso, Planalto e Polícia Federal. Em questão de dias, a oposição conseguiu a proeza de converter um tema favorável numa espécie de contenda institucional em que o governo, de repente, aparecia como defensor da coerência jurídica.
Houve recuo. Houve mais uma reescrita. Houve, sobretudo, desorientação. E a sensação de que o problema não é a falta de bandeiras, mas a incapacidade de sustentar qualquer uma delas sem aguardar o sinal do chefe político, que agora opera à distância, inelegível, preso em casa, mas ainda travando iniciativas e atrasando decisões. O resultado é uma oposição que tem oportunidade, tem tema, tem ambiente, mas não tem direção.
No governo, ninguém está exatamente surfando. Para além da soberba usual, a gestão atual tem enfrentado falhas de articulação e dificuldades reais de construir unidade numa base que se acostumou a ser pressionada por todos os lados. Mas o Planalto venceu essa rodada sem ter se mexido muito. Às vezes, basta assistir o adversário se atrapalhar.
É nesse cenário de improvisos que a pesquisa Quaest aparece trazendo Lula e Bolsonaro tecnicamente empatados. O empate em si importa menos que o percurso: o tema da segurança reorganizou humores, deu algum fôlego à oposição e produziu um efeito paradoxal. Mesmo inelegível, Bolsonaro voltou a ocupar com mais força um espaço de expectativa. Não porque ofereça soluções – porque não as oferece –, mas porque o governo falhou em apresentá-las. Nas últimas semanas, Lula deu declarações terríveis sobre a operação do Rio e perdeu pontos mesmo entre eleitores que não cogitam votar na direita.
Os dados revelam uma dança complexa. Lula ainda vence todos os cenários, mas perdeu de 3 a 8 pontos de vantagem em quase todos eles, resultado do crescimento do bloco dos independentes que rejeitam o atual e o ex. O fato de estarmos presos nesta maldita dicotomia é prova de que a política insiste em revisitar o passado porque não consegue formular o futuro.





