
O caso do general Augusto Heleno produziu uma comoção rara até para quem está acostumado ao desastre institucional brasileiro. Não pela doença, que exige respeito, solidariedade e cuidado, mas pela decisão de esconder, durante anos, um diagnóstico que torna impossível exercer com plenitude o cargo mais sensível da inteligência nacional. Não é trivial descobrir que o homem que tinha acesso ao cofre das informações sigilosas, que cochichava no ouvido do presidente e que ajudou a desenhar diretrizes contra as urnas lidava, desde 2018, com um quadro de Alzheimer em evolução.
E o mais chocante é que essa revelação aparece agora, quando a defesa tenta usar o diagnóstico para pedir progressão ao regime domiciliar. Se essa condição existe desde 2018 – ou ao menos desde 2022, como registram os exames obtidos pelo Correio Braziliense – por que nunca foi informada enquanto ele era ministro? Por que não veio à tona no momento em que se tornou réu? Por que não apareceu antes de a Primeira Turma do STF julgá-lo por tentativa de golpe? Ego? Porque evidentemente não é mentira. Não pode ser mentira.
A justificativa de que “se ele avisou o presidente, tudo bem” não resolve nada. Ministério não é uma sociedade limitada. Não funciona na base da confiança pessoal, nem da camaradagem militar. A saúde de qualquer cidadão é privada; a de quem assume um cargo de Estado com impacto direto na segurança nacional simplesmente não pode ser tratada como se fosse um segredo doméstico. O interesse público exige transparência e essa transparência foi ignorada a ponto de, hoje, não sabermos se Bolsonaro sabia ou não sabia da condição do próprio chefe do GSI.
Se Bolsonaro sabia, expôs o país a um risco inaceitável. Se não sabia, tocou o governo sem a menor noção da situação de quem o protegia e protegia o país. Em qualquer cenário, a falha é monumental.
Nada disso tem a ver com demência. Alzheimer não produz cadernetas golpistas guardadas em gavetas, não caça confusão com o Papa, não organiza quarteladas. O que produziu tudo isso foi o projeto político do qual Heleno era parte essencial – desde sua lealdade ao Sylvio Frota, o homem que tentou dar um golpe dentro do golpe militar por não concordar com a redemocratização – e que, agora, usa uma condição médica séria como amortecedor jurídico.
Não é que Heleno não tenha que ir para a casa. Ele tem que ir. É o gesto mais humanitário a se fazer. Mas a doença não justifica os malfeitos.
O Brasil foi colocado em risco pela opacidade, pela ocultação e por uma lógica de poder que se comporta como se o Estado fosse um condomínio particular na Barra da Tijuca. É por isso que este episódio incomoda tanto: porque revela um país governado sem o mínimo protocolo de responsabilidade. Um país que, quando mais precisava de lucidez institucional, recebeu silêncio.
O caso do general Heleno não se trata de Alzheimer. Trata-se de escolhas e das consequências de quem decidiu priorizar um projeto de poder acima da República que jurou proteger.




