Há uma diferença importante entre o criminoso comum e o criminoso sem medo. O primeiro faz mal, claro, mas o segundo desafia os fundamentos que permitem que vivamos em sociedade.
Quando uma facção do Vale do Sinos passa a planejar atentados contra delegados, promotores e um juiz, nós deixamos de falar apenas de crime e entramos no terreno da ousadia orgulhosa, onde o bandido acredita que pode tudo.
Os vídeos e prints divulgados pela Polícia Civil mostram que não se tratava de bravata. Havia logística, levantamento de endereço, fotografia das vítimas, troca de informações, estudo de rotina. Um planejamento frio, feito por gente que já operava uma estrutura de lavagem de dinheiro com milhões de reais circulando em contas de fachada, veículos de luxo e pulverização bancária. Criminosos que não só lucram milhões com o tráfico, como já lucraram tanto que atingiram o patamar da soberba.
E nada alimenta mais a soberba do que a sensação de impunidade.
A operação desta segunda (17) expôs algo decisivo: quanto mais o crime organizado cresce financeiramente, mais ele se vê como poder paralelo. Um poder que acredita ter autorização para intimidar quem investiga, quem acusa e quem julga. Quando um grupo chega ao ponto de cogitar matar um juiz, o problema ultrapassa a segurança pública e entra na zona da integridade institucional do Rio Grande do Sul.
O recado dos delegados envolvidos na Operação Sentinela é direto. Não haverá espaço para ameaças a autoridades, e cada menção será investigada como ato de coação no curso do processo. É a resposta mínima que se espera de um Estado que já enfrentou e desarticulou facções importantes, inclusive com prisões de chefes que seguem cumprindo pena.
Mas o episódio também acende um alerta conhecido: toda vez que o crime se reorganiza, ele testa os limites que mantêm funcionais os nossos acordos sociais e as nossas instituições. Testa a polícia, testa o Ministério Público, testa o Judiciário e testa a nossa tolerância coletiva. A pergunta nunca é apenas “o que eles fizeram?”, mas “o que teriam feito se ninguém tivesse chegado antes?”.
Criminosos inteligentes são perigosos. Criminosos ousados são imprevisíveis. E criminosos sem medo, como esses que se acham capazes de intimidar quem lhes aplica a lei, são uma ameaça que exige vigilância permanente.
A sociedade só respira aliviada quando o Estado mostra que não vai recuar. E hoje o Estado deu a resposta correta: firme, rápida e sem hesitação. Porque, diante de grupos que confundem audácia com poder, hesitar é o primeiro passo para perder terreno.






