
Há escolhas que explicam um governo melhor do que um discurso. A nomeação de Guilherme Boulos para a Secretaria-Geral da Presidência é uma dessas. O Planalto decidiu que, para conversar com a rua, chamaria alguém cuja biografia foi escrita no asfalto. O megafone agora tem crachá.
A Secretaria-Geral nasceu para escutar. É o ouvido do presidente junto a movimentos sociais, coletivos e entidades. O risco é sedutor e antigo: confundir escuta com aplauso. Governo não é assembleia e a marcha, lá dentro, é sempre mais lenta que o passo de um ato na Paulista. Boulos sabe falar para multidões. A tarefa, agora, é traduzir esse repertório para o idioma da institucionalidade, onde o tempo do convencimento é longo e os verbos preferidos são “conciliar”, “negociar”, “adequar”.
Há cálculo, claro. Lula precisa reaquecer a militância num momento em que a economia não empolga e a fadiga democrática cobra introspecção. A aposta é que se a rua parece distante, é preciso trazer para o governo alguém que saiba chamá-la pelo nome. Só que o Brasil de 2025 mudou de vizinhança. A rua, hoje, é muitas ruas. Há sindicatos e coletivos, mas também evangélicos, setor de serviços, economia de aplicativo, agronegócio conectado. Falar “com a rua” exige um coral mais largo que o conjunto de vozes que já concordam entre si.
Politicamente, o movimento tem prós e contras. No curto prazo, energiza a base e envia recados internos. O lulismo continua confortável em seu próprio espelho. No médio, multiplica interlocutores para a mesma plateia. A máquina já está cheia de ministérios com missão de diálogo. Se todo mundo fala para dentro, quem fala com quem pensa diferente? Em um país partido ao meio, pregar para convertidos rende like, mas converte pouco.
Boulos diz que quer “colocar o governo na rua”. Talvez o verbo mais útil seja o inverso: trazer a rua para dentro do governo sem transformar o governo num movimento. Isso significa filtrar demandas, dizer muitos “nãos” com respeito, e construir os raros “sins” que cabem no Orçamento, no Congresso e na Constituição.
Há, ainda, a variável eleitoral. Se decidir concorrer em 2026, o novo ministro terá de sair em abril. Seria um mandato-tampão de poucos meses, mais vitrine que projeto. Nada desabonador, mas pedagógico. A política brasileira transformou cargos de Estado em degraus de campanha. O problema não é a ambição, é o que se deixa de pé quando o degrau é retirado.
No tabuleiro maior, Lula escolhe alguém que pensa parecido, fala parecido e organiza o mesmo campo simbólico que o elegeu tantas vezes. É uma reafirmação de identidade. Identidades ajudam a não se perder e também podem impedir que a gente enxergue o que mudou. As ruas, repito, já não cabem num único corte ideológico. Quem pretende governar precisa, cedo ou tarde, aprender novas paisagens.
Se Boulos descobrir o tom certo – menos palavra de ordem, mais gramática de convergência –, sua passagem pode dar liga a um governo que, muitas vezes, se comunica bem com os seus e mal com o resto. Se repetir o conforto do espelho, reforçará a sensação de que o Planalto confunde volume com alcance.
O megafone virou microfone. O teste, agora, não é o de quem fala mais alto. É o de quem consegue ser ouvido por quem discorda.






