
O ministro Mauro Vieira voltou de Washington dizendo que o encontro com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, teve um “clima excelente”. Mais um passo em direção a reaproximação entre os governos de Lula e Donald Trump depois de meses de tensão, sanções e retaliações.
Na prática, tudo segue como antes. As tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros continuam em vigor e as sanções da Lei Magnitsky, que atingem autoridades brasileiras, seguem de pé. O que há de novo é o tom. E em diplomacia o tom é muito importante.
O que deve ser feito é o que o Itamaraty sempre fez de melhor: transformar impasses em agenda e desconfiança em interlocução. Para um governo que tenta recuperar prestígio internacional, um encontro produtivo na Casa Branca é um alívio político. Para o país, é a perspectiva de um alívio econômico. O Brasil precisa de espaço para negociar, sobretudo num momento em que o continente começa a se tornar, de novo, uma praça de guerra.
Porque enquanto os políticos falam em cooperação, Trump fala em operações secretas. Nesta semana, o presidente americano confirmou aquilo que até pouco tempo era tratado como teoria da conspiração: as ações da CIA na Venezuela são reais e estão em curso. Sob o argumento de combater os cartéis de drogas, os EUA mobilizaram navios, submarinos e até bombardeiros B-52 sobre o Caribe. E ofereceram 50 milhões de dólares pela captura de Nicolás Maduro, acusado por Trump de liderar o Cartel de los Soles, uma rede de militares e políticos venezuelanos ligados ao tráfico de cocaína.
É claro que há mais do que retórica antidrogas nessa ofensiva, como o petróleo venezuelano, mas também é fato que Maduro transformou a Venezuela numa ditadura degradada, que fraudou as urnas, destruiu a economia, perseguiu e matou opositores e expulsou milhões de pessoas do próprio país. A derrocada desse regime não seria uma má notícia para ninguém, nem para o povo venezuelano, nem para os vizinhos que acolhem seus exilados. O problema é o método. Quando os EUA confundem guerra com política externa, acabam deixando ruínas por onde passam.
Lula reagiu dizendo que o terrorismo não pode ser confundido com segurança pública e que o Caribe não deve ser tratado como um teatro de guerra. Diplomatas brasileiros alertam para o risco de uma nova crise migratória na fronteira de Roraima, caso o conflito se expanda. E o governo brasileiro, que avança com os americanos numa frente, se afasta em outra ao não condenar com veemência o regime chavista.
O continente vive mais um capítulo de sua velha contradição: a América Latina quer paz, mas está sempre na linha de tiro dos poderosos. E o Brasil, mais uma vez, caminha sobre o fio da navalha tentando não ser vítima de ninguém, mas acabando sendo cúmplice de todos eles.





