
O Brasil virou especialista em criar siglas, comissões e grupos de emergência. Cada tragédia ganha um nome bonito, um novo núcleo, uma coletiva solene e uma foto de autoridade com cara de seriedade. É o velho roteiro nacional em que nós criamos a estrutura de emergência quando a emergência já passou por cima de todo mundo. Quando o sangue seca, volta tudo ao mesmo lugar. Agora é a vez do “Consórcio da Paz”, formado por governadores de direita depois da operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro.
O anúncio foi feito no Palácio Guanabara, lotado de microfones, com Cláudio Castro ladeado por Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Jorginho Mello. Tarcísio de Freitas participou por vídeo e elogiou o Rio por ter “dado uma grande demonstração”. O discurso foi o de sempre: apoio à polícia, dureza contra o crime e um pouco mais de dureza ainda contra o presidente Lula.
No papel, o consórcio promete troca de inteligência, compartilhamento de equipamentos e planejamento de operações conjuntas. Na prática, é um palco político antecipado, um teste de força entre os governadores que querem herdar o espólio eleitoral de Bolsonaro. Zema disse que “o presidente organiza a paz na Ucrânia, mas deixa o povo morrer aqui”, o que é curioso, já que Lula não organizou paz nenhuma na Ucrânia. Talvez tenha sido um ato falho do governador que mais coleciona atos falhos no país. Caiado falou em um “divisor moral entre quem quer lei e ordem e quem quer Lula e Maduro”. E Tarcísio voltou à tese de classificar as facções como terroristas.
Um dia antes, o governo federal já havia criado um “escritório emergencial de combate ao crime organizado”, anunciado por Ricardo Lewandowski ao lado de Castro. De um lado, o escritório de Lewandowski. Do outro, o consórcio de Castro e companhia. E, no meio disso tudo, a violência segue reinando tranquila.
O Rio continua sendo o microscópio do país, onde o Estado perdeu o monopólio da força e também o do medo. Nas favelas, o tráfico dita as regras, as escolas seguem fechando, o comércio paralisado e as famílias dos quatro policiais mortos tentam enterrar seus mortos em paz. A barbárie deixou de ser exceção e passou a ser o método.
Enquanto Brasília e os governos estaduais disputam narrativa pensando em 2026, o país segue administrando tragédias por decreto e improviso pensando em sobreviver. O que falta não é mais uma força-tarefa, um núcleo, um consórcio ou um nome criativo. Falta Estado. Falta presença contínua, política pública, coordenação que dure mais que um ciclo de hashtags.
Porque, enquanto se inventam novos nomes para as mesmas promessas, as comunidades continuam sitiadas, os policiais continuam enterrados e a paz continua sendo apenas um slogan barato.





