
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, declarou neste fim de semana que, se eleito presidente, seu primeiro ato seria conceder indulto a Jair Bolsonaro. Primeiro ato. Antes de anunciar medidas econômicas, sociais ou ambientais, o gesto inaugural seria o perdão a um crime. Me recuso a acreditar que tenha sido inspiração de Romeu Zema, que disse o mesmo recentemente tentando cavar algum tipo de apoio do pai de Carlos Bolsonaro, que classificou o governador mineiro como um rato oportunista. Só o exemplo supracitado mostra que não é a melhor referência.
A declaração não soa como projeto de país, e sim como senha de lealdade.
Na mesma toada, de acordo com o jornalista Lauro Jardim, foi em um diálogo combinado com Ciro Nogueira que surgiu outra frase de efeito de Tarcísio: “fazer o Brasil crescer 40 anos em 4”. Um eco distante da promessa de Juscelino Kubitschek de realizar 50 anos em 5. Mas enquanto JK falava de futuro, de Brasília, de rodovias, de indústria, o que se anuncia agora é um avanço no atalho da impunidade.
A obsessão com a anistia é reveladora. Não busca reconciliação nacional, como gostam de vender. Busca blindagem. Não é o país que ganha, é um grupo político que se protege. É a tentativa de transformar a democracia numa alfaiataria de perdões feitos sob medida.
E Tarcísio, ao se apresentar como herdeiro dessa pauta, revela o tamanho do seu projeto. Não precisava. Goste-se ou não do governador, os dados oficiais mostram avanços palpáveis na infraestrutura e na economia de São Paulo e sua aprovação é alta, de mais de 60%. Mas ele não falou de economia, de infraestrutura, de segurança pública. Falou de indulto. A primeira promessa é um perdão, a primeira prioridade é um réu. É nesse ponto que a ambição presidencial se confunde com fidelidade pessoal.
Eis o problema: toda vez que a política gira em torno de salvar líderes, o país fica órfão de projetos. Quando a agenda central é quem vai ou não vai escapar da cadeia, não sobre nada para a saúde, a educação, o crescimento econômico. Nessa lógica, democracia não é regime, é álibi. E o país, em vez de discutir futuro, fica reduzido a organizar mutirão de habeas corpus.
O julgamento que começa no Supremo não é apenas sobre Bolsonaro. É também sobre como os aspirantes ao Planalto lidam com a democracia: como um espaço de instituições ou como uma extensão de lealdades privadas. Transformar a Presidência em sinônimo de perdão absoluto a criminosos não pode ser um caminho aceitável para chegar ao Alvorada. Não com dignidade.
A democracia brasileira já é frágil demais para seguir sendo diminuída por projetos eleitorais que começam e terminam em indultos. Se a política quer resgatar algum sentido, precisa parar de confundir futuro com perdão.





