
As denúncias contra o professor e advogado Conrado Paulino da Rosa, suspeito de crimes sexuais e violência psicológica em Porto Alegre, são perturbadoras não apenas pelo conteúdo, mas pelo padrão que revelam. Segundo os relatos, ele era encantador em público, carinhoso no dia a dia, mas, na intimidade, se transformava. A descrição recorrente é de um homem que, na hora do sexo, virava “um monstro”.
O mais inquietante é que, diante da gravidade das acusações, a defesa dele afirmou ter “convicção da inexistência de fatos penalmente relevantes” e que ele “repudia qualquer forma de violência contra a mulher”. Eu acredito nisso. Não no sentido de que ele seja inocente em relação ao que alegam as vítimas, claro, mas no sentido de que ele realmente deve acreditar que o que fez não se enquadra em violência. É aí que mora o perigo.
A fronteira entre desejo, consentimento e abuso continua turva na cabeça de muita gente. Para quem exerce o poder, ainda mais em relações assimétricas, essa confusão pode ser usada como ferramenta de dominação. Por isso, é urgente falarmos sobre educação. Precisamos ser claros, transparentes e insistentes na formação das nossas crianças — especialmente os meninos — sobre o que é violência sexual, o que é violência psicológica e o que configura um relacionamento abusivo.
Sempre haverá um desavisado que tente relativizar, dizendo que mulheres também cometem crimes sexuais. É verdade, mas não se pode fugir dos números: no Brasil, onde a subnotificação é gigantesca, 88% das vítimas que têm coragem de registrar ocorrência são mulheres. Isso não é coincidência, é estrutura. É machismo e masculinidade tóxica operando de forma sistêmica.
Para as meninas, a mensagem precisa ser igualmente contundente, mas em outra direção: elas não têm culpa. Não existe roupa, bebedeira, comportamento ou escolha de vida que as torne responsáveis pela violência que sofrem. O que existe é a necessidade urgente de denunciar sempre, sempre, sempre.
E não é possível culpá-las por isso. A novela Dona de Mim exibiu recentemente uma cena brutal de estupro em que a personagem, vivida por Giovanna Lancellotti, já havia procurado a polícia antes, denunciando o agressor por stalking, e foi desacreditada por um policial. A ficção, dolorosamente, reflete a realidade.
Enquanto esse padrão não mudar, enquanto as mulheres não se sentirem seguras para falar e forem tratadas com respeito e seriedade por quem deveria protegê-las, continuaremos girando em círculos e mais mulheres terão suas mandíbulas deslocadas e suas vaginas dilaceradas por estes monstros.
Casos como esse não são apenas histórias individuais: são sintomas de uma sociedade doente que precisa urgentemente se olhar no espelho. Porque, se não encararmos essa conversa, continuaremos formando homens que não reconhecem a violência que praticam e mulheres que, no silêncio, carregam sozinhas as marcas que eles deixam.




