
No fim de semana passado, falei nesta coluna sobre o ano-novo judaico, o Rosh Hashaná. Nesta próxima semana, nós, judeus, celebramos o Yom Kipur, o Dia do Perdão. Para a tradição judaica, é o momento mais solene do ano: são vinte e cinco horas de jejum, introspecção, pedidos de desculpas e reconciliação. Mas o perdão só existe quando o ofensor reconhece sua culpa e demonstra arrependimento genuíno. Não há indulgência sem responsabilidade. Perdoar, nesse contexto, não é esquecer: é enfrentar.
É impossível não pensar nisso diante da prisão do professor de Direito Conrado Paulino da Rosa, que é suspeito de estupro, agressões e violência psicológica contra ao menos 13 mulheres. Conrado e sua defesa seguem sustentando que repudiam qualquer forma de violência contra a mulher enquanto as vítimas relatam o contrário: um homem que se apresentava como respeitável e afetuoso em público, mas que na intimidade se transformava num predador monstruoso e violento que agrediu uma delas até deslocar sua mandíbula.
Não se trata de contradição, mas sim de mecanismo de poder. Muitos agressores não se reconhecem como tal porque enxergam desejo como consentimento, dominação como afeto e abuso como direito adquirido. Essa cegueira não ameniza o crime, pelo contrário, é parte agravante dele. É o verniz que protege os abusadores e perpetua o silêncio das vítimas.
Na sexta-feira, houve coletiva de imprensa da Polícia Civil para dar mais detalhes da prisão e da investigação. E se é que podemos usar essa expressão, foi alentador ver quatro mulheres à frente da apuração, conduzindo a comunicação e coordenando as linhas de trabalho. É uma sinalização importante de que, desta vez, a coisa pode não acabar em pizza.
Yom Kipur é o dia em que cada pessoa deve se encarar no espelho e admitir seus erros. A prisão de Conrado Paulino da Rosa é um lembrete de que parte da nossa sociedade ainda insiste em mascarar abusos como se fossem normais. Mas não são.
Enquanto não tratarmos com seriedade a violência contra a mulher e não garantirmos segurança e credibilidade às vítimas, continuaremos formando homens que se julgam acima da lei e mulheres obrigadas a carregar sozinhas as marcas da violência.
O Dia do Perdão não é pretexto para complacência. Ele deve servir de alerta de que sem arrependimento não há perdão e sem justiça não há paz. E, sobretudo, de que sem coragem coletiva para romper esse ciclo, seguiremos presos a uma cultura que protege agressores e condena mulheres ao silêncio.
Se o Yom Kipur é, para os judeus, a oportunidade anual de olhar para dentro e corrigir rotas, que seja também para todos nós um chamado a encarar de frente a doença social que insiste em normalizar o abuso. Não para absolvê-lo, mas para extirpá-lo.




