
Na estatística existem dois conceitos que atravessam as ciências: correlação e causalidade. Causalidade é simples de entender: uma variável provoca diretamente mudanças na outra. Por exemplo: a vacina reduz mortes por doenças evitáveis; o crime leva à punição na Justiça — ou deveria levar. Já a correlação descreve quando dois acontecimentos distintos parecem andar juntos, mas sem que um necessariamente cause o outro. Em dias de chuva, por exemplo, aumentam o número de ruas molhadas e o número de pessoas com guarda-chuva. Mas não é porque as ruas estão molhadas que alguém abre o guarda-chuva.
É aí que a mágica — ou a confusão — acontece. Nem sempre correlação indica causalidade. Um dos exemplos mais citados é quase cômico: estatisticamente, os anos em que Nicolas Cage lançou mais filmes coincidiram com menos mortes por afogamento em piscinas nos Estados Unidos. Nos anos em que lançou menos, aumentaram os acidentes de helicóptero. Tudo verdade, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Ou será que tem? Eu, supersticioso que sou, tendo a acreditar que coincidências não existem. E aí volto a 2016. O Brasil já estava em convulsão política desde que o PSDB questionou a validade da reeleição de Dilma Rousseff, em 2014. Vieram as ruas divididas, o processo de impeachment e, depois de meses de trauma, o afastamento definitivo da presidente em 31 de agosto de 2016. Dois dias antes, em 29 de agosto, outra notícia paralisava o país: o fim do casamento de William Bonner e Fátima Bernardes. Foi como se a vida pública e a vida privada nacional tivessem colapsado na mesma semana. A partir dali, nunca mais fomos os mesmos.
Por isso, não consigo deixar de pensar no que significa, energeticamente falando, o anúncio de que William Bonner, depois de 29 anos, vai deixar a bancada do Jornal Nacional ter sido feito justamente na véspera do julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo.
Das duas uma: ou esse comunicado histórico vem como auspício de que o país está prestes a reencontrar um mínimo de normalidade política e social, ou é um aviso apocalíptico de que a coisa vai degringolar de vez. Confesso que não sei o que é mais difícil de imaginar: um Brasil mais tranquilo ou o Jornal Nacional sem Bonner. Mas talvez, no fim, a gente se acostume com tudo.



