
Brasília rodou três salas ao mesmo tempo. Na primeira, o STF abriu o julgamento de Jair Bolsonaro e do núcleo duro da tentativa de golpe. Primeiro dia é primeiro dia: sustentações que repetem teses, apartes que rendem corte de vídeo e pouco chão firme. O que realmente se decide, por ora, é a moldura jurídica — tipificação dos crimes agora, dosimetria das penas mais adiante. O rumo parece traçado enquanto o tamanho da pena, não.
Na segunda sala, com microfone e ata, Eduardo Tagliaferro falou no Congresso. E o foro importa: o que foi dito ali, na casa do povo, diante de parlamentares, ganha peso e vira instrumento político. Ele acusou o ministro Alexandre de Moraes de adulteração de relatório e direcionamento político de investigações. É o script perfeito para contaminar o ambiente do julgamento com a tese da parcialidade. E aqui está a chave que muita gente prefere ignorar: Bolsonaro pode ser flagrantemente culpado por boa parte do que lhe atribuem, mas os excessos do Supremo dão à defesa o que ela precisa. Quando a Justiça deixa brecha, a política enche de narrativa e o destino, nós já conhecemos: pizza.
A terceira sala é a da aritmética e tem um operador evidente: Tarcísio de Freitas. Em poucas horas, trabalhou votos para uma anistia aos condenados do 8 de Janeiro e empurrou a União Progressista para fora do governo. No pacote, a promessa de indulto a Bolsonaro, caso a faixa um dia lhe caia no colo. O que evidentemente não pacifica o país, apenas antecipa o próximo contencioso. Troca-se revisão técnica de penas por um carimbo de curto prazo que costuma sair caro no longo.
As três salas conversam entre si. A consistência do STF — na tipificação e na dosimetria — define o custo político de qualquer anistia. O depoimento no Senado foi montado para dialogar com o que se discute no plenário: se prospera a leitura de “excesso”, cresce a pressão por atalhos legislativos. E Tarcísio mede a temperatura para 2026: quanto mais o Supremo endurece sem falhas, mais arriscado é o canetaço; quanto mais o Supremo derrapa, mais “corretiva” parece a anistia.
O Brasil já decorou esse enredo. Quando a Justiça avança sem se desviar da lei, resiste. Quando exagera, oferece munição. Quando o Congresso resolve com “pacote”, desautoriza a própria defesa da Constituição. E no meio disso tudo, um governador testa tamanho, um ex-presidente testa limites e o contribuinte tem a paciência testada.
Não houve xeque-mate, mas o tabuleiro andou. E ao que tudo indica, o final do jogo não será escrito em apenas uma sala.




