
A Justiça brasileira tem toga, martelo e internet. O problema é que, entre a sentença e o clique, alguém esqueceu de proteger quem mais precisava de silêncio. O G1 revelou que tribunais de diversos estados brasileiros publicaram nomes, endereços e detalhes de processos envolvendo crianças estupradas e mulheres vítimas de violência doméstica. Um escândalo que não tem nada de acidente.
Não foi um hacker, não foi um vazamento sofisticado. Foi o próprio sistema automático, insensível e negligente. Robôs programados para dar publicidade a tudo, inclusive ao que a lei manda esconder. Enquanto isso, os tribunais seguem orgulhosos de suas inovações tecnológicas. Algoritmos que sabem fazer tudo, menos discernir o óbvio: que o nome de uma criança violentada não pode ir pra internet.
Claro, agora todos correm para dizer que foi um “erro”, a palavra mais elástica do vocabulário institucional brasileiro. Um erro técnico, um caso isolado, uma falha pontual. Mas todo erro técnico esconde uma decisão política. Alguém lá atrás, no topo do organograma, achou que era mais importante publicar rápido do que revisar com cuidado. Que a meta de produtividade era mais urgente do que a dignidade das vítimas.
É o velho Brasil: o país que tem leis avançadas, mas que tropeça na execução básica. Que fala bonito sobre direitos humanos em seminários, mas expõe o endereço de uma mulher agredida num portal público. O país multiplica instâncias, corregedorias e comissões para lidar com escândalos mas que nada faz para impedir que eles aconteçam.
O dano já foi feito. Já está no Google. Já circula em grupos de WhatsApp. Já virou ameaça para quem achou que tinha, no Judiciário, um espaço de reparação. Agora, vai tudo pra corregedoria. Depois, talvez, uma recomendação, um ajuste de conduta, uma nota técnica. E, se tudo correr bem, uma promessa: “isso não vai se repetir”. Mas vai.
Vai porque o problema não é só do código que automatizou o erro. É da cultura que minimiza o erro. Que transforma o sigilo em detalhe e a vítima em burocracia. Que expõe porque é mais fácil deixar o sistema rodar do que criar barreiras para proteger.
E assim seguimos: num país onde a Justiça julga, mas não cuida. Onde ela não é cega — é distraída. E onde o segredo de justiça se tornou mais uma expressão de marketing institucional, não uma garantia de segurança real.
Enquanto isso, as vítimas seguem sendo duplamente violentadas: uma vez pelo agressor. Outra, pelo sistema que deveria protegê-las.






