
O Brasil é um país tão surpreendente que, num intervalo de poucos minutos, o Congresso conseguiu protagonizar uma boa notícia e, ao mesmo tempo, uma das maiores vergonhas da nossa história recente. A boa foi a derrubada do aumento no IOF — aquele imposto que parece sofisticado, técnico, progressivo, apenas para os ricos mas que, no fim das contas, penaliza o trabalhador que parcela a vida em doze vezes. O trabalhador comum, que parcela a geladeira, o cartão, a fatura do celular. Que faz milagre com o salário. Que sofre cada vez que os juros sobem, mesmo sem saber exatamente o que é a Selic. É para esse cidadão que o IOF pesa, não para os ricos, como querem te fazer acreditar. E o governo Lula queria pesar ainda mais.
Não pesou porque levou uma surra na Câmara. Uma derrota rara, daquelas que provocam ranger de dentes até nos mais fiéis. O deputado Lindbergh Farias, por exemplo, não se conformava que nem a ministra Gleisi Hoffmann conseguiu contato com o presidente da Casa para tentar barrar o texto. O mesmo Hugo Motta que o governo ajudou a empoderar, a acomodar, a prestigiar, é quem agora virou as costas. O fato disso surpreender e irritar o líder do governo é cômico, já que até as pedras no caminho sabem que Brasília é assim: ninguém é de ninguém. Todo mundo usa todo mundo até não precisar mais. Como dizia Brizola, a política ama a traição, mas odeia o traidor. Só que em Brasília, até os traidores viram ministros.
Só que essa história, por mais saborosa que seja, é a parte boa do dia. Porque enquanto os deputados votavam contra o aumento do imposto, eles também aprovavam o aumento deles mesmos. Mais cadeiras no Congresso. Mais parlamentares. Mais verba de gabinete. Mais motorista, mais combustível, mais cota parlamentar, mais penduricalho, mais emenda. A justificativa é “atualizar a representação dos estados”. Claro, porque o que falta no Brasil é deputado. Tudo o que o povo precisa é de mais parlamentares. O mesmo povo que não consegue pagar o plano de saúde, a escola do filho, o aluguel do mês — esse mesmo povo agora tem mais 18 deputados para chamar de seus. Olha que maravilha.
É tão absurdo que mal dá pra se indignar. A gente só ri. Ri de nervoso. Ri pra não sair quebrando tudo, queimando tudo, como fariam os franceses se vivessem por aqui. Porque no fundo, é tudo trágico demais. Não é só a cara de pau: é o cinismo institucionalizado. O Brasil virou o país onde a tragédia se repete como farsa e a farsa se repete como orçamento.
No fim do dia, o retrato é esse: o governo é um gastador compulsivo. Quando falta dinheiro, não corta gasto, inventa imposto. E o Congresso é uma máquina de privilégios, ocupada por profissionais do oportunismo. Quando os sanguessugas veem o cofre aberto, não falam de crise, pedem uma xícara maior. E a gente observa, paga, engole, se revolta e vai dormir. Ou pelo menos tenta. Porque o sono do brasileiro comum é feito com dois ônibus, cinco boletos, um susto no supermercado e uma raiva crônica que não passa.
Chamam isso de democracia representativa. Mas representativa de quem, meu Deus? Dos que vivem em Brasília? Ou daqueles que só são lembrados quando chega a eleição? Porque se depender da conta, da vida real e da revolta que cresce em silêncio, essa democracia tem cada vez menos povo e cada vez mais representantes de si mesmos.


