
Imagina se alguém dissesse que a violência contra as mulheres não é fruto da misoginia, mas sim, vitimismo? Ou então que a violência policial contra a população negra não tem a ver com racismo, e que dizer isso é vitimismo? Ou ainda que gays são espancados no mundo inteiro não por causa da homofobia, mas por vitimismo? Seria insuportável. Inaceitável. Inacreditável. Nenhuma pessoa com o mínimo senso de decência ou compreensão da realidade toleraria esse tipo de frase. Seria um escândalo e deveria ser, mesmo.
Agora troque “homofobia”, “racismo” e “misoginia” por “antissemitismo” e você terá, nas palavras do presidente da República, um discurso legitimado. Lula, mais uma vez, recorre a libelos antissemitas para criticar Israel. E dessa vez não foi num lapso inconsciente ou num tropeço linguístico. Ele disse com clareza: “Tem que parar com esse vitimismo”, referindo-se aos que denunciam o antissemitismo em meio às críticas à guerra em Gaza.
É grave. Muito grave. Porque não se trata apenas de uma frase infeliz. Trata-se de um eco perigoso dos piores momentos da história. Quando um presidente da República sugere que antissemitismo é exagero, ele não apenas banaliza o ódio. Ele o normaliza. E quando esse mesmo presidente já comparou Israel a Hitler, já foi declarado persona non grata pelo Estado judeu e insiste nesse tipo de retórica, o nome disso não é ignorância. É opção política.
E Lula sabe. Sabe o peso das palavras. Sabe a simbologia que carrega uma frase como essa dita por um chefe de Estado. Mas, mais uma vez, preferiu a arrogância ao equilíbrio, a desinformação ao respeito. Preferiu agradar plateias ideológicas a assumir a responsabilidade institucional de seu cargo. Preferiu zombar do antissemitismo em vez de reconhecer o quanto ele mata.
Porque sim, ele continua matando. Na semana passada, em Washington, um casal de funcionários da embaixada de Israel foi assassinado a tiros por um extremista na porta de um museu judaico. O terrorista odiava judeus e achava que aquilo ajudaria a causa palestina. Já neste último fim de semana, oito pessoas foram feridas num ataque com fogo a um evento judaico nos Estados Unidos. Outro atentado antissemita. Outra tragédia. Outro lembrete de que o ódio contra os judeus não ficou no passado.
E enquanto tudo isso acontece, o presidente do Brasil zomba. Diz que “a gente se faz de vítima”. E fecha com chave de ouro um ciclo vergonhoso de declarações, comparações e cinismo institucional. Mas o problema é que, pra quem conhece a história — e o povo judeu conhece — isso não é novidade. Nós sabemos o que acontece quando o antissemitismo é tratado como uma invenção. Sabemos onde esse tipo de desumanização leva. Sabemos porque já fomos perseguidos por egípcios, babilônios, gregos, romanos, inquisidores, czares, nazistas. Todos não existem mais, mas nós existimos e resistimos ao ódio e ao tempo.
E não por heroísmo, mas por teimosia, por memória, por um senso de identidade que não se rende nem mesmo quando o mundo inteiro quer que a gente se cale. Seguimos e seguiremos aqui do jeito que mais irrita os canalhas: fortes, resilientes e de cabeça erguida. Não para reviver o passado, mas para impedir que ele se repita.
Golda Meir dizia que o mundo odeia o judeu que bate de volta. O mundo só nos ama quando estamos prostrados, queimados, implorando por migalhas de compaixão. E talvez seja exatamente por isso que ainda nos olham com tanto rancor. Porque não caímos mais de joelhos.
Nunca mais.




