
O Brasil virou especialista em criar personagens de realismo fantástico. Agora, por exemplo, temos o pescador de cidade sem rio. Ele não tem barco, não tem vara, não sabe nadar, mas pesca um seguro defeso gordo, pago religiosamente pelo INSS. Só que não há rio. Nem peixe. Nem defeso. Só fraude.
A descoberta dessa semana é digna de roteiro de comédia. Em algumas cidades do interior do Pará, mais de 40% da população estaria, segundo os registros oficiais, vivendo da pesca. O número é tão fora da realidade que só pode ter saído da imaginação de um golpista. E saiu mesmo. Foram centenas de cadastros falsos, autorizados sabe-se lá por quem, garantindo o benefício de pescador artesanal a quem nunca molhou os pés.
Enquanto isso, os brasileiros reais seguem em outra fila: a da espera por aposentadoria. Tem gente que aguarda mais de um ano para ter seu pedido analisado. Um processo que exige papelada, prova de vida, paciência e sorte. Porque o INSS virou isso: um sistema onde quem frauda passa na frente e quem precisa de verdade fica no banco de trás.
A tentativa do governo Lula de conter essa fila não veio por senso de justiça. Veio por cálculo. Segundo a Folha de S.Paulo, a ordem era represar a liberação de benefícios para segurar o estouro do orçamento em ano eleitoral. Só que a represa rachou. E agora a estimativa é de que serão necessários, no mínimo, 14 bilhões de reais para regularizar a situação. Dinheiro que, em tese, deveria estar lá — mas parece ter sido pescado por fantasmas.
No meio disso tudo, surgem as conexões políticas. Investigações da Polícia Federal sobre o escândalo dos descontos indevidos em benefícios do INSS já citam nomes como Fausto Pinato, Onyx Lorenzoni e até o ex-juiz Sergio Moro. E como tudo, no Brasil, vira ringue ideológico, o caso agora também está em disputa no STF.
A cada novo fio puxado, o que aparece é mais podridão. O Brasil não tem mais um sistema de seguridade social: tem um campo de batalha, um balcão de negócios, uma máquina de moer dignidade.
E o mais perverso de tudo: enquanto os golpistas colhem, o cidadão de verdade reza pra não morrer antes de ver o benefício cair na conta.






