Quantos escritórios jurídicos brasileiros são capazes de faturar R$ 3,6 milhões por mês? Não muitos, sem dúvida. Refinemos a pesquisa. Quantos escritórios jurídicos brasileiros sustentam um faturamento mensal de pelo menos R$ 3,6 milhões ao longo de, sob chuva ou sol, 36 meses consecutivos? Repito: três anos embolsando uma bolada mensal desta magnitude, quantas bancas conseguem um feito destes? Poucas, convenhamos, porque estamos falando de uma fortuna de R$ 129 milhões amealhada em apenas um triênio. Para se ter uma ideia, mais de 4,5 mil municípios brasileiros arrecadam menos do que isso e precisam de socorro federal para atender a suas populações.
Cinco semanas de silêncio de Moraes sobre o contrato com o Master
Voltando ao cerne da questão. Quantas firmas de advocacia estão aptas a extrair R$ 129 milhões de um único cliente? Há algumas, claro, especialmente em causas de valor bilionário. Mas seria possível operar uma proeza assim assinando um contrato oco, sem objeto específico? Não, não seria possível. Mas foi o que aconteceu com a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. Em 2023, quando o Banco Central começava a desconfiar das operações de um certo Banco Master, que crescia vertiginosamente prometendo juros irreais a quem comprasse seus títulos, Viviane firmou o mais estapafúrdio negócio jurídico já visto no Brasil. Daniel Vorcaro, o controlador do banco que viria a ser liquidado dois anos depois sob acusação de fraudes financeiras, procurou o escritório da família Moraes e... contrato assinado. Vigência: de janeiro de 2024 a janeiro de 2027. Valor da parcela mensal: R$ 3,6 milhões, o equivalente a mais de 77 vezes o ordenado mensal do marido de Viviane como ministro da Suprema Corte brasileira.
Viviane não fez praticamente nada em contrapartida ao valor oferecido pelo contrato. Pudera: o contrato não a obrigava a fazer nada mesmo, parecendo mais uma doação. Quem fez algo, ainda não explicado satisfatoriamente à nação, foi o marido dela. Segundo diferentes veículos, como O Globo, Moraes fez contatos com o Banco Central para externar algum nível de preocupação com investigações que a autoridade monetária estaria fazendo sobre as operações do enrolado Master.
Aos brasileiros que, nos cafés e mercearias, desconfiam da lisura deste tipo de pagamento, Moraes nada disse em sua defesa. Tudo o que ofereceu à opinião pública, desde a revelação da colunista Malu Gaspar, foi silêncio. Cinco semanas de silêncio, enquanto tenta distrair a plateia com truques já conhecidos – especialmente o de agravar o martírio de Jair Bolsonaro, o incômodo sujeito que se atreveu a desafiar o poder de uma máquina de corrupção.
A engrenagem ainda funciona, mas, como na canção de Ramalho, já sente a ferrugem lhe comer.






