
Não era para Lula que Javier Milei olhava, mas cada palavra que o presidente argentino recolhia do contundente discurso que leu na cúpula do Mercosul tinha como alvo o brasileiro que, entre outras características, cultiva o hábito de moldar o discurso ao gosto da platéia.
— Talleyrand disse certa vez que a linguagem foi dada ao homem para ocultar seu pensamento — fustigou Milei — creio que caracterizou de forma correta em que se transformou particularmente o discurso diplomático. Muitas vezes, em fóruns e encontros como este, a norma é falar dizendo o menos possível.
Negando-se a fazer parte de um jogo de cena, Milei reiterou que prefere dizer “uma verdade difícil” a proferir uma “mentira confortável” e foi logo pontuando, com clareza, os princípios e objetivos que vêm fazendo a Argentina ganhar o respeito de publicações antes céticas a ele, como a revista britânica The Economist — a mesma que há poucos dias mostrou como e por que o Brasil de Lula desce a ladeira da irrelevância no palco do debate mundial.
A elegância com que Milei constrói, ele próprio, os seus discursos, vez ou outra mostra que, na retórica, como no futebol, há hora para o drible com sutileza mas, também, para aquele carrinho bagual típico de um volante argentino — ou gaúcho, como sabemos. O presidente argentino disse, com todas as letras, o que Lula precisava ouvir desde que mandou dizer não ao pedido de Washington para enquadrar como grupos terroristas as facções criminosas brasileiras que já atuam em metade dos estados norte-americanos.
— Se o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho se estenderem pelo Mercosul, toda a região estará em perigo, e será impossível erradicá-los desde o seu país de origem — assinalou Milei, dando nome, e nacionalidade, aos bois.
A proposta de Milei de criar, no âmbito do Mercosul, uma agência “para extirpar da região o câncer do crime organizado” foi aprovada. O Brasil, que assiste inerte à infiltração de “irmãos” do crime em empresas, instituições financeiras e nas carreiras jurídicas que abastecem polícias, ministério público e Judiciário, não se opôs formalmente à medida. Lula, contudo, tratou de visitar a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, que depois de um longo processo em que teve amplo direito à defesa, em diferentes instâncias julgadoras, foi condenada a seis anos de prisão por... corrupção.


