
Veículos blindados da ONU. Violência e pobreza. Corredor humano de felicidade. Guardas com metralhadoras na frente do supermercado. Guardo com clareza na memória as imagens que vi em Porto Príncipe, capital do Haiti, adversário do Brasil nesta sexta-feira (19) pela Copa do Mundo. Em agosto de 2004 tive a oportunidade de fazer pelo Grupo RBS uma das coberturas mais marcantes da minha trajetória profissional.
Naquele ano a Seleção Brasileira, com estrelas como Ronaldo Nazário e Ronaldinho Gaúcho, esteve no Haiti para o chamado "Jogo da Paz", em um amistoso contra a seleção local. O objetivo era levar um pouco de felicidade para um país mergulhado em uma crise política que afetou toda a população, sem condições básicas para uma vida digna.
Como em 2004 a MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) tinha a presença forte de militares gaúchos, a ideia da cobertura era mostrar como estava funcionando o trabalho por lá. Por isso, desembarquei em Porto Príncipe uma semana antes do jogo. Já na chegada fui para a base militar montada em uma área da capital.
Somente com o apoio dos militares, e usando coletes à prova de bala, consegui me deslocar por locais extremamente perigosos e dominados por gangues. Após a renúncia do então presidente Jean Bertrand Aristide, o risco de guerra civil era iminente.
Neste período o que mais me chamou a atenção foi a pobreza absoluta por todos os lugares em que passava. Em alguns supermercados, seguranças com metralhadores faziam a guarda para evitar saques e garantir a segurança das poucas pessoas com condições de comprar algo. No mais, a rotina era de entrega de doações e alimentos por todo o país.
No hotel onde me hospedei, a recomendação era clara: evitar deixar entrar na boca a água do chuveiro do banho, o que evidenciava as precárias condições sanitárias. Esse mesmo hotel foi completamente destruído pelo terrível terremoto de 2010, que matou 220 mil pessoas em mais uma tragédia do país.
Em uma das saídas pelas ruas, lembro das cenas marcantes dos haitianos correndo atrás dos carros da MINUSTAH e implorando por ajuda e comida. Na chamada "Cozinha do Diabo", milhares de moradores locais circulavam preparando, vendendo e trocando alimentos próximos a valas de esgoto a céu aberto.
No dia do jogo, em 18 de agosto, vieram as imagens mais impactantes. A delegação do Brasil permaneceu na República Dominicana, e somente horas antes da partida, desembarcou em Porto Príncipe. Todos os jogadores desfilaram pelos principais pontos da cidade nos tanques da ONU acenando para cerca de um milhão de haitianos que se acotovelaram por todos os cantos. O calor era de 40 graus, o que não tirou a felicidade no rosto de cada um deles.
O Estádio Sylvio Cator estava abarrotado, com a capacidade de 20 mil torcedores completamente esgotada. Em campo, vitória fácil do Brasil por 6 a 0, com três gols de Ronaldinho Gaúcho, dois gols de Roger Flores e um gol de Nilmar. Os haitianos vibraram sem parar a cada jogada do Brasil. Foi um dia de felicidade para um povo sofrido. Pelo alambrado era possível perceber o sorriso no rosto de cada torcedor.
Agora, 22 anos depois, o Brasil volta a enfrentar o Haiti. E desta vez em uma Copa do Mundo. Após 52 anos, o país conseguiu vaga para o Mundial. Mas a rotina sofrida do povo não mudou.
Tanto é que o Haiti sequer conseguiu jogar as Eliminatórias em Porto Príncipe. Com a crise política, as partidas foram disputadas em Curaçao. E a comissão técnica e jogadores trabalham fora do país. Infelizmente a situação está longe de ter um final feliz. E de novo o futebol dará pelo menos algumas horas de felicidade para um povo tão sofrido.
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