
Há algo de muito errado no ensino da medicina no Brasil. Em 2004, tínhamos 143 faculdades, agora são 494, número absoluto que nos confere o segundo lugar no mundo — atrás apenas da Índia. Ganhamos dos Estados Unidos (330 milhões de habitantes) e da China (1,4 bilhão).
No momento, somos cerca de 636 mil médicos no país. Como as escolas atuais oferecem mais de 50 mil vagas por ano, daqui a 10 anos seremos mais de 1,2 milhão.
Sem abusar de sua paciência, prezada leitora, aí vão mais números. Em 2025, a demografia mostrava que havia em média três médicos para cada 1 mil brasileiros, proporção razoável, uma vez que na França são 3,9; no Reino Unido, 3,4; e na Suécia, 4,5.
Daqui a 10 anos, o índice será de 5,25 médicos por 1 mil habitantes. O problema não está nesse número, mas na distribuição e na qualidade desses profissionais.
Faculdades abertas por interesses puramente financeiros vão formar médicos que colocarão em risco a saúde de todos nós.
DRAUZIO VARELLA
Concentração nos grandes centros
Vamos à distribuição. Hoje, para cada mil habitantes temos: 6,2 médicos no Distrito Federal, 4,2 no Rio de Janeiro, 3,7 em São Paulo, 1,5 no Amazonas e 1,2 no Maranhão.
Você poderá argumentar que tamanha desigualdade justificaria aumentar a oferta de profissionais. Está enganada, caríssima leitora, os dados demonstram que eles tendem a se concentrar nos grandes centros.
Enquanto durou o programa Mais Médicos, não estive num único lugarejo em que as médicas e os médicos cubanos não fossem elogiados. Sem entrar na discussão partidária, não foi a livre escolha, mas uma política pública que levou o atendimento àquelas populações.
Outra face do mesmo problema vem do fato de que 80% de nossas faculdades de Medicina são privadas, com alunos que pagam em média mensalidades de R$ 12 mil, acessíveis apenas à classe média alta e aos mais abastados.
É pouco provável que meninas e meninos criados em cidades com acesso a shoppings, cinemas, bares e baladas se aventurem por comunidades ribeirinhas do Alto Rio Negro ou pelas cidadezinhas do sertão maranhense.
Qualidade da formação
Vamos ao segundo problema: a qualidade dos profissionais.
Ao completar os seis anos formação, o recém-formado de hoje está legalmente autorizado a abrir consultório de qualquer especialidade, em qualquer canto do território nacional.
Embora os Conselhos Regionais e as sociedades médicas exijam provas para conceder títulos de especialista, não há restrições legais suficientes para impedir os despreparados de dar consultas e realizar procedimentos cirúrgicos.
Faculdades abertas por interesses puramente financeiros, em locais sem hospital-escola digno desse nome, sem professores com formação acadêmica nem laboratórios e instalações adequadas, vão formar médicos que colocarão em risco a saúde de todos nós.
O que fazer? O Estado não pode permitir que essa realidade se perpetue.
Todos os médicos que conheço e respeito estão de acordo com a necessidade de exames de proficiência para os cursos de Medicina.
DRAUZIO VARELLA
Reprovados não poderão exercer a profissão
Por essa razão, é muito bem-vinda a medida provisória (MP) recém-promulgada que "estabelece um conjunto de regras para avaliar a formação médica no país".
A MP pretende submeter os estudantes de Medicina a um exame nacional, obrigatório, para avaliar o desempenho individual. Os resultados servirão para produzir indicadores sobre a qualidade dos cursos que frequentam.
O estudante reprovado não poderá exercer a profissão, mas terá direito de prestar quantos exames forem necessários, até alcançar as notas mínimas. Cursos com baixo desempenho ficarão sujeitos a medidas regulatórias sob supervisão do MEC e a sanções que vão da suspensão das vagas vinculadas ao Fies e ao Prouni, ao cancelamento da autorização para novos exames vestibulares ou de seleção.
Necessidade dos exames
No quarto ano da faculdade, os estudantes prestarão um exame de suficiência, com finalidade "diagnóstica e formativa" que permita identificar as dificuldades no aprendizado. Os resultados servirão para auxiliar alunos e faculdades a corrigir as falhas, antes de iniciar o período de internato.
Todos os médicos que conheço e respeito estão de acordo com a necessidade de exames de proficiência para os cursos de Medicina. Alguns, como eu, defendem que eles sejam feitos a cada dois anos. Não parece justo deixar alguém que paga R$ 12 mil por mês chegar ao fim de um curso de má qualidade, para correr o risco de não conseguir se formar.
De qualquer modo, essa medida provisória é muito bem-vinda. Se os advogados são obrigados a prestar o exame da Ordem, qual o sentido de não fazer o mesmo para impedir que os médicos cheguem ao mercado de trabalho sem qualificação?





