
O crime organizado dos vendedores de nicotina ataca de novo. Além de pressionar a Anvisa para liberar os cigarros eletrônicos, agora querem aprovar os sachês de nicotina, saquinhos que contêm doses altas da droga, para ser absorvida quando colocada entre a gengiva e a bochecha.
No começo dos anos 1980, fiz um estágio no Instituto Karolinska, em Estocolmo, um dos mais renomados centros de oncologia da Europa. Passávamos em visita na enfermaria todas as manhãs. No fim, nós nos reuníamos na sala dos médicos para tomar café e discutir os casos.
Nessa hora, sempre havia um ou dois médicos que tiravam alguma coisa do bolso do avental e começavam a manipulá-la, por baixo do tampo da mesa, fora do ângulo de visão de todos. Em seguida, como se fossem bocejar, levavam a mão à boca. A manobra deixava uma saliência na bochecha.
O que me chamava a atenção era o disfarce. Por que fazer escondido? Cheguei a pensar em alguma droga ilegal, mas não tinha intimidade com o grupo para perguntar.
Semanas mais tarde, um dos colegas comentou que a Suécia enfrentava um problema grave de adição ao tabaco absorvível pela mucosa oral, costume antigo no país, que caíra no gosto dos adolescentes e das crianças.
Aromas doces e sabores frutados para quê? Para viciar crianças e adolescentes.
DRAUZIO VARELLA
Comércio ilegal pela internet
Com o nome de snus, essa forma de administração de nicotina se disseminava entre jovens que, embora não fumassem cigarros, desenvolviam uma dependência química muito mais grave: "Quem começa a usar nunca mais para".
Tinha razão: passados 40 anos, apesar de saberem que estraga as gengivas, os dentes e causa câncer, um em cada sete suecos adultos é dependente de snus. Com o passar dos anos, os fabricantes desenvolveram os sachês para mitigar o gosto aversivo do tabaco.
No Brasil, a comercialização é proibida, mas eles são adquiridos ilegalmente pela internet.
Chamados de pouchs nos Estados Unidos, o Food and Drug Administration (FDA) aprovou a liberação em 2025. Quando o FDA constatou que o crescimento das vendas de pouchs era mais rápido do que o das demais apresentações de nicotina, decidiu brecar a aprovação de novas marcas de sachês. A medida fez cair o valor das ações da Philip Morris e da British American Tobacco, companhias por trás das marcas mais populares, que pretendiam liberar versões mais novas para aumentar as vendas.
A Philip Morris vendeu nos Estados Unidos 794 milhões de latas apenas em 2025, mais do que o dobro de 2023. O país é o maior consumidor mundial de dispositivos para administrar nicotina, como alternativa para o cigarro. Lá, o lóbi é poderoso, esse mercado movimenta US$ 22 bilhões por ano.
Risco para crianças e adolescentes
Em matéria publicada na Folha de S. Paulo, a jornalista Claudia Collucci chama a atenção para a estratégia da indústria: "São vendidos em latinhas coloridas, com aromas doces e sabores frutados e como alternativa para pessoas que desejam largar do cigarro".
Aromas doces e sabores frutados para quê? Para viciar crianças e adolescentes, muitos dos quais carregarão a dependência de nicotina até o túmulo.
É a mentira de sempre. Tentam dar a impressão de que pretendem vender cigarros eletrônicos e sachês como se fossem remédios, para ajudar os que querem se libertar do cigarro que eles promoveram com propagandas durante um século. Devem pensar que somos um bando de imbecis. Você acreditaria nas boas intenções do PCC e do Comando Vermelho, se um dia submetessem à Anvisa um sachê de cocaína para ajudar fumantes de crack?
A comparação não é descabida, prezada leitora: 37 anos atendendo doentes em cadeias me convenceram de que é mais fácil largar o crack do que o cigarro. A nicotina provoca a dependência química mais escravizadora de todas.
O que essa indústria criminosa quer é aprovar novos dispositivos para administrar nicotina, só porque as vendas de cigarros têm diminuído. A sociedade tomou consciência da carga de sofrimento e das mortes provocadas por eles. Se os sachês forem aprovados pela Anvisa, eles usarão a rede de distribuição que montaram para vender cigarros comuns pelos quatro cantos do país. Então, os sachês e os vapes estarão ao alcance da mão nos botequins e no meio das balas e chocolates das padarias.
É uma gente que não se envergonha por viciar crianças e adolescentes. Nesses anos de cadeia, conheci centenas de traficantes de maconha e cocaína que se orgulhavam de nunca terem vendido para criança. Os vendedores de nicotina poderiam aprender com eles pelo menos esse princípio ético.






