
Coisa mais difícil na medicina é prever quanto tempo uma pessoa viverá, por mais doente que esteja. Essa, no entanto, é uma pergunta frequente de familiares e amigos.
Com os pacientes de câncer, os médicos antigos se aventuravam a fazer estimativas: "No máximo, seis meses". Talvez considerassem prova de competência acertar a data fatídica ou interpretassem mal o ensinamento de Hipócrates: "O que traz fama ao médico não é sua capacidade de fazer diagnósticos, mas prognósticos".
Minha geração de oncologistas aprendeu que esse tipo de adivinhação não faz sentido: as reações individuais são variáveis. O mesmo tipo de câncer, na mesma localização, com estadiamento idêntico, se torna incompatível com a vida em dois meses para um, enquanto a sobrevida do outro chega a um ano e a de um terceiro passa de cinco.
No começo da carreira, nos anos 1970, um colega recém-formado como eu naquela época observou: "Nosso sucesso profissional deve muito aos cirurgiões que saem do centro cirúrgico dizendo quanto tempo vai viver o paciente que acabaram de operar". Tinha razão. Os familiares ficavam agradecidos para sempre quando conseguíamos resultados melhores: "Dez anos atrás, deram seis meses de vida; graças ao senhor está vivo até hoje".
A duração da vida é sempre imprevisível. O máximo que conseguimos é citar dados estatísticos: "Em casos como o do seu pai, a mortalidade em cinco anos chega a 30%" ou "Os índices de cura de pacientes como sua mãe ultrapassam 80%".
A verdade é que erramos mesmo nas fases mais avançadas de doenças malignas.
DRAUZIO VARELLA
São de pouca valia essas informações. Seu pai estará entre os 30% que vão evoluir mal? Sua mãe, entre os 80% que serão curados? Tais níveis de incerteza são fonte de ansiedade e sofrimento para doentes e familiares.
A verdade é que erramos ao estimar a expectativa de vida, mesmo nas fases mais avançadas de doenças malignas. Quantas vezes achei que determinada senhora viveria poucas semanas, mas ela viveu três meses ou, ao contrário, faleceu no dia seguinte.
Faço essas observações ao ter acabado de ler um artigo no British Medical Journal of Supportive and Paliative Care, em que pesquisadores sul-coreanos descrevem um teste simples que permite identificar as horas finais dos que estão à beira da morte.
Na cultura coreana, é tradicional que parentes estejam ao lado de seus entes queridos no momento da morte. Segundo o principal autor do trabalho, o médico Jung Hun Kang, "esse costume conduz a perguntas difíceis e urgentes, a respeito do tempo que resta".
No estudo, foi pesquisado o reflexo corneano em pacientes em fase terminal — esse reflexo é o que faz piscar quando tocamos na córnea. Participaram 112 pessoas, a maioria das quais com câncer avançado. A média de idade era de 73,5 anos. Faleceram no decorrer de uma semana 110 pacientes. Todos foram submetidos ao teste do reflexo corneano três vezes por dia, aplicado com um cotonete por um grupo de enfermeiras.
De acordo com a resposta, eles foram divididos em três grupos. Resposta intacta: fechamento imediato das pálpebras. Diminuída: fechamento lento ou incompleto. Ausente: nenhum movimento das pálpebras.
Naqueles com ausência do reflexo, o risco de óbito nas 24 horas seguintes foi 5,5 vezes maior do que entre os que mantiveram reflexos intactos ou diminuídos. Neles, a mortalidade nas 24 horas seguintes foi de 70,7%.
A ausência do reflexo dá suporte à previsão de morte iminente, embora a sua preservação não signifique que ela não possa ocorrer a qualquer momento. Segundo Kang: "A perda do reflexo reflete a deterioração progressiva da função do tronco cerebral, como parte do processo natural da morte".
O desaparecimento desse reflexo tem sido usado como critério diagnóstico de óbito há mais de 50 anos. A originalidade do estudo coreano foi a de testá-lo em pessoas ainda vivas.
Falar sobre os processos biológicos associados à chegada da sinistra senhora é um tabu na história da medicina. É fundamental, entretanto, conhecê-los porque fazem parte inseparável da nossa existência. Como escreveu Guimarães Rosa: "Viver — não é? — é muito perigoso". Tinha razão, a morte está sempre à espreita.




