
Tivemos um general que, ao assumir o Ministério da Saúde, confessou não conhecer o SUS. Os Estados Unidos não fizeram por menos, escolheram um ativista antivacina para o mesmo cargo.
Eu ainda era pequeno quando me ensinaram a respeitar opiniões e ideias alheias, mesmo que não concordasse com elas. Mas, sinceramente, como levar a sério gente que frequentou escola e questiona a utilidade das vacinas? É um absurdo tão grande quanto afirmar que a Terra é quadrada.
Ainda na década de 1970, foi criado o Programa Nacional de Imunizações, que se tornaria o maior programa de vacinações gratuitas do mundo. Os resultados foram imediatos: em poucos anos, eliminamos a varíola, a poliomielite, o sarampo e reduzimos drasticamente a incidência de doenças que atormentaram crianças como eu, criadas num Brasil sem vacinas: difteria, caxumba, tétano, coqueluche e rubéola, entre outras.
Ninguém imaginaria que no século 21 os raros antivacinas existentes receberiam a ajuda de ideologias e de líderes políticos — incluindo presidentes das repúblicas do Brasil e dos Estados Unidos — que abalariam a confiança da sociedade na segurança dos imunizantes, com o objetivo espúrio de ganhar popularidade.
Tradicionalmente, entre nós, mães e pais levavam seus filhos para se vacinar com a mesma naturalidade com que lhes administravam o antitérmico prescrito pelo pediatra. Quando começaram a ouvir governantes e lideranças políticas dizer que as vacinas eram perigosas, os índices de vacinação caíram no país inteiro.
EUA, que já haviam eliminado o sarampo, têm surto da doença em 14 Estados.
DRAUZIO VARELLA
Nos Estados Unidos, aconteceu o mesmo. Com mais de 9 milhões de crianças não vacinadas contra o sarampo, os norte-americanos, que já haviam eliminado a doença, agora assistem a surtos no Texas, na Califórnia e em uma dúzia de Estados. Em 2025, foram mais de 2,1 mil casos.
Não se iluda, prezada leitora: os antivacinas não são simples negacionistas, são ativistas que disseminam ideias estapafúrdias capazes de provocar sofrimento e até a morte de crianças.
Se já é discutível justificar o direito da pessoa de não tomar determinada vacina, visto que ela poderá trazer o risco de disseminar o agente infeccioso na comunidade, aqueles que divulgam mentiras sobre a segurança de imunizantes exaustivamente testados e aprovados por organismos internacionais e pela Anvisa cometem um crime contra a saúde pública. E assim, como criminosos, devem enfrentar os rigores do código penal.
Caro leitor, não desperdiçarei seu tempo repetindo comprovações científicas da eficácia e da segurança das vacinas nem dos benefícios associados a elas. Na coluna de hoje, quero falar das demonstrações recentes de seu impacto na prevenção de um dos principais flagelos que afligem a humanidade: as demências.
Estudos anteriores haviam demonstrado que a vacinação contra a gripe reduz o risco de hospitalizações por insuficiência cardíaca, pneumonia e outras infecções respiratórias, infarto do miocárdio e AVC.
Uma pesquisa conduzida na Dinamarca mostrou que a vacinação contra a gripe reduziu em 10% as internações por problemas cardiorrespiratórios, bem como a probabilidade de desenvolver covid de longa duração. Efeitos semelhantes foram descritos com as vacinas contra o Herpes zoster e contra o vírus sincicial respiratório (VSR).
O British Journal Age and Ageing publicou uma metanálise de 21 estudos observacionais que compararam a incidência de demências em adultos com mais de 50 anos, vacinados e não vacinados. No total, foram mais de 104 milhões de participantes da Europa, Ásia e Estados Unidos.
Os principais resultados mostraram que:
- A vacina atual contra o Herpes zoster confere 90% de proteção contra essa doença que provoca vesículas na pele ao longo do trajeto dos nervos, que ardem, coçam e doem nas fases iniciais, e podem deixar neuropatias com meses ou anos de duração. Além desse benefício, ela reduz 24% do risco de apresentar qualquer forma de demência e, em particular, 47% do risco de Alzheimer
- Tomar a vacina da gripe diminui em 13% o risco das demências
- A vacinação contra o pneumococo diminui em 36% o risco de Alzheimer
- A vacina tríplice contra tétano, difteria e coqueluche administrada aos mais velhos reduz 33% do risco de demências
A conclusão dos autores é clara: "Estratégias vacinais devem ser incorporadas nas iniciativas de saúde pública para prevenção de demências".






