
Esses ativistas antivacina emergiram das catacumbas da estupidez humana.
Nas nações mais ricas da Europa, no início dos anos 1900, a expectativa média de vida mal chegava aos 40 anos. Quando o século 20 terminou, esse número havia quase duplicado. A vacinação teve papel fundamental nesse aumento.
No curso de Medicina na USP, visitávamos a enfermaria de varíola do Hospital Emílio Ribas. Era um ambiente lúgubre, no qual os pacientes passavam o dia deitados, sem pôr os pés no corredor, medida necessária para impedir que um vírus contagioso como aquele se espalhasse pelo hospital inteiro.
Nunca mais esqueci aqueles homens com o corpo coberto de feridas e os rostos cheios de vesículas que deixavam marcas pelo resto da vida. Vestiam pijamas azuis, obrigatórios, para identificá-los caso quebrassem o isolamento. Na enfermaria feminina, além das cicatrizes que lhes roubavam a beleza, os olhares opacos e os soluços abafados criavam um cenário trágico.
Havia formas mais benignas da doença, mas as mais comuns vinham associadas a taxas de mortalidade de 20% a 40%, índices que ultrapassavam 90% nas apresentações malignas.
Na década de 1960, a Organização Mundial da Saúde (OMS) deu início à campanha global de erradicação da doença. Em 1980, a OMS declarou o vírus da varíola extinto do mundo. O flagelo que disseminou sofrimento e morte por mais de 10 mil anos desaparecera da face da Terra, graças à engenhosidade de Edward Jenner, o criador da vacina, e ao empenho da OMS e dos países que vacinaram suas populações.
Um mentiroso contumaz
Digo isso, caríssimo leitor, porque tenho acompanhado o esforço — até aqui infrutífero — dos norte-americanos para que o presidente da república demita do cargo mais importante no sistema de saúde dos Estados Unidos o advogado Robert Kennedy Jr., o mais feroz militante antivacina naquele país.
Esse senhor é um mentiroso contumaz. Não se cansa de repetir uma sucessão de absurdos para convencer as pessoas a não se vacinar. Com argumentos falsos, insiste que as vacinas são perigosas, que podem causar doenças graves e levar à morte — só não ousa dizer que podem transformar seres humanos em jacarés. Para convencer os incautos, mente sem pudor, diz que as vacinas contra a covid-19 não foram estudadas nem demonstraram efeito protetor.
É muito chocante ver um estúpido como esse ser escolhido para cargo tão importante, justamente pelo presidente do país em que mais de 400 cidadãos receberam o prêmio Nobel e que mais contribuições tem dado à biologia, à medicina e às ciências da saúde.
Robert Kennedy Jr. é um mentiroso contumaz. Não se cansa de repetir uma sucessão de absurdos para convencer as pessoas a não se vacinar.
DRAUZIO VARELLA
Vidas colocadas em risco
Os benefícios das vacinas para a humanidade são tantos e de tal ordem que negá-los exige quatro condições: ser muito ignorante, estúpido ou mal-intencionado. A quarta é a de acumular essas três características.
Eles justificam suas posições contrárias à ciência com o argumento da liberdade individual: "Tenho o direito de não me vacinar". Visto que não há como vacinar adultos à força, o tal direito lhes está assegurado, ainda que venha acompanhado do risco de espalharem o agente infeccioso contra o qual não foram imunizados.
O que as leis não deveriam permitir é que eles façam uso das redes sociais para mentir e distorcer dados científicos, com a intenção de confundir os ingênuos e cometer o crime de colocar em risco a vida de crianças e também dos adultos que se deixam convencer por gente dessa espécie.
É chocante ver médicos falando contra a vacinação. Quem são eles? Que faculdade lhes outorgou o diploma? Por que nossos conselhos estaduais e o federal não lhes cassam a licença para clinicar? Quando o antivacina é médico, o mal é muito maior.
Uma história da covid-19
Estávamos no final de 2021 quando comecei a atender no Centro de Detenção Provisória do Belém. Surpreso com o pequeno número de casos de covid-19, perguntei ao diretor como estavam os índices de vacinação.
Cadeeiro experiente, ele respondeu que eram de 100%. Duvidei. Contou que quando o preso recusava a imunização, ele aguardava a hora da tranca, ia até a porta da cela — sempre com mais de 20 homens trancados — e chamava o rebelde pelo nome completo. Explicava que o Estado disponibilizava a vacina, mas que ele não podia obrigar ninguém a tomá-la. Se o recalcitrante insistia na negativa, ele acrescentava:
"Não posso colocar em risco a vida dos familiares dos seus companheiros. Vou ter que suspender as visitas de todos".



