
Talvez este ciclo de Copa do Mundo só perca para o de 1966 em termos de turbulência. O técnico Vicente Feola convocou 47 jogadores e os dividiu em quatro times. A então CBD vendia amistosos para prefeituras, o que, obviamente, atrapalhou a eleição dos 11 titulares e, pior, prejudicou o entrosamento.
Do complexo de vira-latas, até 1958, passos ao condenado ao êxito. Vínhamos do bi no Chile. O tri, que só viria em 1970, após uma longa, planejada e profissional preparação, parecia moleza em 1966. Caímos já na primeira fase. Aprendemos a lição por um tempo. Em 2006, quando a CBF vendeu os treinos em Weggis, na Suíça, voltamos à estaca zero.
Os erros de agora são de outra natureza, obviamente. Estrutura e equipe de apoio há de sobra, sob o comando de Rodrigo Caetano. A política é que atrapalhou tudo, com presidente deposto na CBF. Mas quatro técnicos em um único ciclo, mesmo após Tite anunciar a saída com anos de antecedência, isso não existe.
Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti têm ideias diferentes sobre futebol. Na urgência e na emergência, com a Seleção jogando mal contra qualquer adversário, só havia uma saída: trazer o mais campeão de todos os treinadores disponíveis no planeta. Um nome incontestável. E dar a ele a chance de operar o milagre.
O sonho do hexa passa pelo primeiro estrangeiro a comandar o Brasil numa Copa. Sem estrelas geniais na Seleção, ele optou por um time operário, sem medo de se defender e de ficar menos tempo com a bola. Contra-ataque. Cascudos na estreia deste sábado (13) contra o Marrocos, para que os nervos não atrapalhem. O culto ao “ódio de sofrer gol”, como revelou Alisson.
Sem alguém que resolva com certeza lá na frente, melhor se garantir atrás. Essa é a ideia: uma Copa operária, com todos rosnando e sujando o calção, ao menos para começar, reconhecendo a distância para os favoritos: França, Espanha, Argentina e Portugal. A esperança possível está toda depositada nesse italiano sessentão, carismático e de mais silêncios do que frases de efeito. Os jogadores adoram.
Ancelotti não tem inimigos no futebol após décadas de trabalho, algo raro. Estamos pela Família Ancelotti. Bem, Scolari também é um sobrenome italiano, e deu certo em 2002. O direito ao sonho do hexa não pode ser cassado, por mais improvável que seja. Sonhar não custa nada, e o sonho começa neste sábado, contra o valente e perigoso Marrocos.
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