
Detesto uísque, nunca fumei um charuto e a ideia de curtir uma balada de música eletrônica na companhia de deslumbrados e seus bandidos de estimação me parece o nono círculo do Inferno. Se jornalistas culturais tivessem alguma serventia para Vorcaro, ele ia ter que se esforçar um pouquinho mais para nos impressionar. E nem precisaria inventar tudo do zero porque o modelo já existe. Houve uma vez um escândalo financeiro em que a ostentação máxima não eram as viagens de jatinhos, as festinhas exclusivas, as garotas importadas. No tempo do Banco Santos, luxo era o Barroco mineiro, a arte feita na Amazônia, os artistas brasileiros.
Há exatos 25 anos, em outubro de 2001, fiz parte do grupo de jornalistas que foi convidado a cobrir quatro grandes exposições de arte brasileira no exterior. Era o braço internacional da histórica exposição Brasil + 500: Mostra do Redescobrimento, realizada no ano anterior em São Paulo. Éramos 10 ou 12 repórteres dos maiores veículos de imprensa do país. Muitos estavam apreensivos com a possibilidade de um novo ataque terrorista em Nova York (o 11 de Setembro havia ocorrido poucas semanas antes), mas ninguém parecia muito perturbado com a generosidade excessiva do mecenas que nos acompanhava: o banqueiro Edemar Cid Ferreira (1943-2024). Cinco anos depois, nosso gentil anfitrião estava preso por gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha. Quem nunca.
O homem que quebrou o Banco Santos usava obras de arte como Vorcaro usava seus contatinhos no zap: para se proteger. Com uma mansão que parecia uma filial do MoMA e fama de amigo da cultura (chegou a presidir a Bienal de São Paulo), Cid Ferreira escondeu-se durante anos atrás do seu capital cultural. Daniel Vorcaro também se achava inincarcerável, mas sua estética era a da ostentação nouveau riche, vulgar, cretina até. Sua estratégia de sedução era uma versão atualizada do “favor”, a estrutura de dependência que organizava as relações sociais no Brasil do século 19, substituindo a autonomia e o direito por trocas de subordinação — como Machado de Assis retrata, de forma intuitiva e genial, em seus melhores romances. Ninguém nunca distribuiu tantos favores, em tão pouco tempo e para tanta gente, como o irmãozão do Flávio Bolsonaro.
Os contrastes entre os dois ex-banqueiros são menos impressionantes do que as semelhanças. Cid Ferreira e Daniel Vorcaro são exemplos da mesma ambição desmedida — e predatória — que no Brasil nem sempre é vista como um problema. Pelo contrário. Não são raros os esbanjadores do dinheiro alheio que ganham estátua em praça pública, nome de rua e são celebrados até hoje como grandes modelos do empreendedorismo nacional.





