
Parece menos com a luta de David contra Golias do que com a batalha final entre Deus e David, definiu uma repórter do New York Times. É como se em vez de produzir cigarros, a indústria tabagista despejasse nicotina na água, comparou um outro comentarista. Os dois se referiam ao confronto judicial entre a Meta e 48 Estados norte-americanos.
Na semana passada, a empresa de Mark Zuckerberg aceitou pagar uma indenização de cerca de US$ 18 bilhões para interromper o processo em que é acusada de incentivar a dependência das redes sociais, concordando também em implementar uma série de medidas para proteger crianças e adolescentes do vício nas telas. Saiu barato. Segundo cálculos da própria Meta, se o julgamento fosse levado até o fim, o valor a ser pago pela companhia poderia alcançar US$ 1,4 trilhão.
David vai ter que lançar pedras maiores do que essa antes de derrubar o Todo-poderoso, mas foi um acordo histórico. A pressão contra as grandes empresas de tecnologia vem se transformando em um movimento global — o que não deixa de ser um pequeno milagre, levando-se em conta a quantidade de gente que desconfia das vacinas e/ou acha que os cientistas estão exagerando quando alertam sobre os riscos das mudanças climáticas. Aparentemente, ainda não apareceu ninguém com coragem de defender que as crianças aprendem a socializar assistindo vídeos no YouTube ou que o TikTok aumenta o QI dos adolescentes. Mas nada é impossível.
Na Austrália, está em vigor desde dezembro uma lei que proíbe o acesso de menores de 16 anos a redes sociais. (Não falta malandro se especializando em burlar a lei, mas já é um começo.) Países como Reino Unido, Espanha, Polônia e Turquia também avançam com suas próprias legislações para exigir idades mínimas de acesso e sistemas robustos de verificação de identidade. No Brasil, o cerco regulatório ganhou força, em março, com o ECA Digital.
Há ainda um longo caminho a ser percorrido por governos (que precisam enfrentar o poder econômico das big techs impondo regulação e sanções adequadas), pela sociedade civil (agindo para tornar a proteção dos usuários uma causa coletiva) e pelos pais (encarregados de assumir a bronca diária de limitar o uso de telas dos filhos enquanto aprendem eles mesmos a se controlar). “Como os estoicos e budistas ensinaram há muito tempo, a felicidade não pode ser alcançada eliminando todos os gatilhos da vida. A felicidade vem da capacidade de aprender a privar os eventos externos do poder de desencadear emoções negativas em você”, observa o psicólogo Jonathan Haidt naquele que se tornou o livro vermelho dessa revolução: A Geração Ansiosa.



